Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Quarta-feira, 25 de Junho de 2014
O MITO E A REALIDADE

 

 

Muitas nações possuem épicas fundadoras que exprimem a existência histórica da nação, onde o mito e a realidade se confundem. Normalmente são feitos guerreiros, lendas de heróis (Nibelungenlied, na Alemanha, Chanson de Roland na França ou baladas e contos como na Finlândia).

Nós temos, talvez mais do que uma: a da fundação da nacionalidade, com D. Afonso Henriques a dar uma tareia na mãe e a épica de Camões sobre os achamentos.

Faz hoje 517 que Vasco da Gama partiu do Restelo para descobrir o caminho marítimo para a Índia das especiarias e do ouro de que se gabava D. Manuel.

Perdura no nosso imaginário a aventura e a proeza das descobertas geográficas, fica em segundo plano ou são olvidados os objectivos centrais: a conquista e o saque de cidades, o comércio quando não se podia pilhar e a propagação da fé cristã. Entre a cruz e a espada, a espada tinha sempre a primazia.

No auge (breve) dos achamentos, D. Manuel auto intitulava-se Rei de Portugal, dos Algarves, d’Aquém e d’Além Mar em África, Senhor do Comércio, da Conquista e Navegação da Arábia, Pérsia e da Índia.

A ambição do programa está clara, os métodos usados para o atingir eram os usados na época, espadeirar, esquartejar e passar a fio de espada o que fosse preciso. Neste métodos, o próprio Vasco da Gama não se fez rogado e a ferocidade das façanhas era motivo de honra e recompensa real.

Em abono da verdade podemos dizer que fomos menos cruéis do que os espanhóis no Novo Mundo, mas cabe-nos a ignomínia de termos «industrializado» o comércio da escravatura que outros praticaram, cujas consequências históricas ainda hoje se fazem sentir.

Somado a tudo isto temos o despovoamento do reino e o retrocesso nas artes e ofícios porque a febre do ouro era colectiva: cada caravela era uma sociedade anónima onde todos participavam no lucro segundo a sua posição social.

Em terra, a Inquisição, em nome da fé, aperfeiçoou os métodos do saque e da pilhagem.

O Império foi sol de pouca dura e em menos de um século perdemos a independência. Depois da saída dos espanhóis a febre do ouro regressou e por escassas décadas a ambição concretizou-se nas minas do Brasil mas tudo se dissipou na forragem das vaidades e da vida airada.

As várias pragmáticas contra o luxo e ostentação não tiveram quaisquer resultados e os estrangeiros que nos visitavam achavam o nosso modo de vida extravagante.

Trabalho, esforço, sacrifício, persistência, cultura e ciência foram banidos dos hábitos indígenas. No final do século XIX, Antero de Quental em “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, com pouco rigor histórico aborda o problema da nossa decadência, atribuindo-lhe três «espectros»: a influência do concilio de Tridente (Inquisição), o absolutismo monárquico e a expansão marítima.

Que a empresa de dar Novos Mundos ao Mundo foi um desastre nacional e o principal factor do nosso atraso civilizacional e económico é ponto assente para a historiografia moderna, mas ainda hoje celebramos a epopeia e esquecemos o reverso da medalha, como ficou visível nos desígnios da Expo 98.

Sem construção naval, sem marinha mercante e pesca, sem investigação nas disciplinas do mar, dedicámos a exposição… aos Oceanos. Salazar também utilizou os Lusíadas para propaganda do regime

É urgente tomarmos consciência que temos de mudar o nosso paradigma de «heróis do mar» e compreender que a pobreza de recursos naturais do nosso rectângulo só pode ser ultrapassa com muito trabalho, esforço e inteligência. O nosso pequeno mundo é ingrato e temos que lutar muito para o transformar.

 



publicado por pimentaeouro às 13:18
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