A minha celebração
Hoje celebro Camões o poeta lírico, não celebro o épico. Não sei quantos católicos lêem a Bíblia nem quantos portugueses terão lido os Lusíadas.
Acontece que a leitura do poema épico não é fácil. Diversos escritores tentaram elaborar versões didácticas dos Lusíadas mas creio que tiveram pouco êxito.
Salazar utilizou o nacionalismo explicito do poema e a exaltação da nossa história, como uma saga de heróis, para legitimar a conservação do Império Colonial e converteu a homenagem ao poeta como o dia de Camões e da raça.
Acontece que esta visão mitológica da nossa história ainda sobrevive sub-reptícia na nossa memória colectiva.
A epopeia das descobertas geográficas sintetizada no enunciado “demos novos mudos ao mundo” tem um reverso muito pesado de que pouco ou nada falamos.
Cada caravela que saia de Lisboa era uma sociedade anónima onde todos tinham uma quota de participação no saque ou no comércio, conforme as circunstâncias.
Vasco da Gama quando chegou à Índia explicou ao que ia: mandou matar cerca de 800 mulheres para que todos soubessem que era o novo dono dos negócios.
Para a moderna historiografia é ponto assente que as descobertas e a febre colectiva do ouro, contribuíram decisivamente para a nossa decadência e atraso económico, que ainda hoje estamos a pagar.
A Inquisição deu também uma ajuda: o combate contra qualquer manifestação de pensamento progressista, era acompanhado do respectivo saque ao património do réu sem direito a defesa.
Antero de Quental, nas “Conferencias Democráticas” referiu este problema em “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”.
Ainda hoje a obra de J. Lúcio de Azevedo “Épocas de Portugal Económico”, serve para ficarmos com uma ideia da ilusão colectiva que nos perseguiu durante cerca de três séculos, até ao estertor do ouro do Brasil.
Os diversos ciclos de riquezas, mais exageradas do que reais, serviram-nos para criar vícios de grandeza e ostentação enquanto o Norte da Europa, com destaque para Ingleses e Holandeses, se desenvolvia economicamente.
Fomos os «almocreves marítimos» que transportou os produtos que ajudaram a desenvolver o comércio da Europa, enquanto nós regredíamos na agricultura e nas manufacturas.
Os enormes progressos culturais e científicos que resultaram dos descobrimentos também nos passaram ao lado: a Inquisição encarregava-se de os manter à distância.
Tudo isto está explicado de forma muito redutora, por várias razões e se tiver oportunidade tentarei desenvolver um pouco mais alguns problemas da História que escondemos debaixo do tapete.
Uma coisa porém me choca e entristece neste reverso da saga dos descobrimentos: não inventamos a escravatura mas fomos os primeiros a industrializar o seu tráfico.
Depois de nós vieram outros (ingleses, holandeses, franceses alemães, etc.) que a praticaram numa escala bem menor do que a nossa e coube-nos a ignomínia de inaugurar o «negócio», ao ponto de não podermos viver sem ele.
Eis muito toscamente porque motivo celebro o lírico do amor, dos sentimentos, do sofrimento em lugar da epopeia mítica, que distorce a realidade do nosso passado.
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