Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Quinta-feira, 14 de Maio de 2015
Pimenta e ouro

 

Tenho navegado contra a corrente pelas costas de África, India e Brasil mas nunca negociei nem pilhei, muito menos trafiquei escravos, mera curiosidade em perceber o que se passou, o que fizemos, quem somos. Deram-me a honra de navegar na minha nau mestre Damião de Gois e Lúcio de Azevedo.

Vi tudo ao contrário do que diz a História velha. Os historiadores de hoje já não contam mitos e lendas.

Os heróis de batalhas famosas foram muitas vezes vilões rapaces, guerreiros e ao mesmo tempo corsários de el Rei; o grande Albuquerque não fugiu à regra.

Terminada a guerra com os «infiéis», a velha nobreza e a nova criada pelo mestre de Avis, alguma burguesia também, queriam o mesmo: benesses, terras e honrarias.

A aventura começou mal com a conquista de Ceuta, uma pilhagem pura praticada por nobres e aventureiros de baixa condição, Zurara descreve a orgia do saque (Crónica da tomada de Ceuta);

“A conquista em terra inimiga, além do despojo imediato, devia representar para os vencedores porções de solo a dividir, alcaidarias rendosas, tributos novos a cobrar”, eis a alma das Descobertas!

De África há pouco para contar, excepto vários reveses, Alcácer Quibir um deles, e a ignomínia do monstruoso tráfico de escravos. O famoso Império da India não passou de uma fantasia, como os seus famosos «fumos».

Não vou alongar-me mais, dou a palavra a mestre  Damião:

  • Posso-o confirmar — disse eu. — Em Lisboa, na Casa da Contratação da índia os oficiais não têm tempo de contar o ouro que lhes devem dos tratos, mas o povo...
  • O pior é que o rei João, apesar dos avisos que lhe fazem alguns conselheiros mais avisados, parece querer seguir a maneira do pai e tapar o grande sorvedoiro com fazer moeda nova.
  • Aonde iremos parar?
  • Pergunta antes onde já nos atolámos. Tanto alarde de riqueza pelo mundo, a embaixada ao papa Leão, elefantes, rinocerotes, onças pérsias, pontificais de ouro... Olhai. Está quase pronto o pontifical que el-rei Emanuel me encomendou para a capela do Tosão de Ouro. Pobre rei. Tão vaidoso da sua riqueza! Não será ele a colher os lou­ros da oferta, mas o filho...
  • Que pontifical? — perguntei.
  • Tomou el-rei a ordem do Tosão, que lhe deu seu primo o impe­rador — disse João Brandão. — Escreveu-me que providenciasse a feitura de um pontifical para ser oferecido à capela daquela Ordem. Estão a acabar de lavrá-lo os melhores tecelães e bordadeiras que encontrámos em toda esta província, e em breve se apresentará na capela do Tosão, que está na Igreja do Sablon na vila de Bruxelas.
  • Peça acabada, sim senhora! Rico pano de ouro com seus sabastros borlados, as armas e insígnias do reino de Portugal, o mais bem obrado pontifical de quantos tenho visto, excepto o que el-rei mandou ao papa Leão por Tristão da Cunha...
  • E entretanto... — insistia o capitão-mor.
  • ... entretanto o povo morre de fome, de peste, de doenças.
  • A terra encontra-se A pouca que é amanhada, mouros o fazem. Tudo quer é ir às índias encher-se de ouro. Tirante alguns que ainda dão a vida pela pátria e outros que se consomem na pregação...
  • A mor fidalguia vive ociosa e o clero em grande soltura de viver. Queres ver o que é trabalhar, Damião? Olha em tua volta. Dentro de dias te aperceberás da diferença. Aqui não se vive de ar e vento.
  • Como se explicará então que, com tanta riqueza que nos vem do trato das especiarias e demais mercancias, haja no reino tanta penúria?
  • Cunhar moeda
  • Eu o vi de facto. A casa da moeda em Lisboa trabalha sem ces­sar para satisfazer as novas cunhagens de portugueses, de ouro e de prata, índios, cruzados, quartos de cruzados, tostões, meios tostões, reais de cobre...
  • Cunho novo — disse o capitão Diogo — faz sempre movimento. Sobem os preços, surge a míngua e a miséria. E fatal.
  • Recordo-me... tinha eu quinze anos... em quinhentos e dezassete acabara el-rei Emanuel de mandar cunhar os meios tostões de prata. Era a hora da sesta, a casa estava despejada e o duque Jaime de Bragança, seu sobrinho, veio falar-lhe. Não estava ali mais ninguém senão meu irmão Fruitos que o penteava e eu que segurava o bacio do penteador.
  • “Que te parece desta moeda, duque?” perguntou el-rei. “Muito mal” respondeu-lhe Jaime. “Moedas novas fazem mudança e carestia no preço de todas as coisas. Com esta que mandaste cunhar, por umas luvas que se vendiam por trinta réis pedem já meio tostão...”
  • Se fossem só luvas. E o pão?
  • ... que a maior peste e perdição de um reino, dizia ele, era fazer moedas novas. E tomai exemplo nas que fez el-rei Com elas destruiu o reino de maneira que nunca mais nele houve os tesouros que dantes os reis costumavam deixar a seus descendentes.
  • E agora o rei manda aos feitores da Flandres que comprem cá cereal para encher os estômagos e esvaziar as bolsas. A nossa misé­ria é muitas vezes tão grande como dias antes a riqueza.
  • Como se entenderão estas marés do tesouro? As grandes des­pesas com as naus da índia?
  • As raízes do mal cavam mais
  • As frequentes frotas custam muito dinheiro mas a carga de um ou dois navios cobre o preço de uma expedição inteira.
  • As causas são outras. El-rei Emanuel, para satisfazer a vontade da futura mulher, a princesa Isabel, filha dos reis de Castela...
  • Estava namorado.
  • Haviam expulsado os judeus e pediam a el-rei que fizesse o mesmo...
  • ... que se arruinasse...
  • E isso mesmo: que se arruinasse. Foi esse o resultado da expulsão de mais de duzentos mil judeus. Saíram do reino e levaram consigo, além do muito dinheiro que possuíam, o saber e a experiên­cia dos ofícios.
  • Pode suprir-se o metal, mas a tradição das artes mecânicas, o apego ao trabalho, os engenhos sutis e delicados, essas são coisas que não há nada que se coloque em seu lugar...
  • Não contente com isso, na Pascoela de quatrocentos e noventa e sete mandou roubar-lhes os filhos...
  • Ad maiorem Dei gloriam! — disse Diogo.
  • Os judeus, mudados em cristãos-novos, com direitos que até aí não tinham, deram em usureiros e, com a especial manha para o negócio que lhes é própria, exploraram a nossa preguiça e insuficiên­cia...
  • Olhai como arrendam os dízimos das igrejas e as novidades dos campos.
  • As riquezas chegadas a Lisboa nas naus da índia e do Brasil passam-nas eles aos portos da Europa.
  • Muitas destas coisas aconteciam, Damião, mal tu eras nascido.
  • De muito longe vem então o mal.
  • De muito longe.
  • O povo revoltava-se. Não faleceram a el-rei Emanuel bons conselhos, o remédio contra a carestia resultante do abandono dos campos em baldio, con­tra a usura vinda da nossa largueza e desperdício...
  • Compra-se demais. A mais vária casta de objectos, dos mais vulgares aos mais

 

 



publicado por pimentaeouro às 22:33
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