Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2015
Santa Imaculada Inquisiçao # 2

2. Modus faciendi

 

 

 

Os seus processos infringiam todas as regras elementares da justiça e do bom senso. Os delatores serviam de testemunhas; os filhos depunham contra os pais, os pais contra os filhos; o réu não podia comunicar com os defensores, nem conhecia quem o acusava; a delação era aplaudida e a espionagem considerada uma virtude. Os familiares insinuavam-se nas famílias, como médicos, confessores, ínti­mos e conselheiros, para captarem os segredas e os delatarem. Na sentença não havia revisão, nem ape­lação. Nas prisões não havia prazos preventivos, e o encarcerado jazia meses, anos, todo o resto da vida muitas vezes, ignorante do crime de que o acusa­vam. Armavam-lhe laço e perfídias para o perder. Metiam-lhe no cárcere pessoas subornadas, que se diziam também pacientes, para o afagarem e se condoerem da sua miséria. Ganha assim a confiança, começavam as confidências: a Inquisição era um horror, uma peste! E se o miserável, perdido, aplau­dia, estava condenado. Para lhe obter a confissão de faltas, imaginárias frequentemente, os inquisi­dores fingiam enternecer-se, prometiam perdões, ajudavam, seduziam, até que o miserável confes­sasse o que fizera, ou não fizera.

 

Esta espécie de tortura era muitas vezes mais dolorosa do que a outra; e os infelizes encarcerados chegavam a considerar um céu o calabouço negro, onde lhes não era dado nem ver, nem falar, nem gemer, nem chorar, sob pena da chibata do verdugo. No seio da treva e do silêncio absoluto, nem bem sabiam se viviam ou tinham morrido, e, como idio­tas, deixavam-se ficar estendidos no chão, imóveis, no antro dos seus sepulcros.

Cada vez que a porta do cárcere se abria, estre­meciam de medo, ou de uma esperança meio-apagada. Levavam-nos amarrados à casa dos tormentos; e enquanto iam descendo as escadas tortuosas, onde os gritos se perdiam abafados, o juízo ardia-lhes, confundiam-se-lhes as ideias, já não distinguiam do real o suposto; começavam a crer-se monstros, a 

acreditar em tudo aquilo de que eram acusados: tinham visto o diabo em pessoa, tinham-lhe vendido a alma, tinham partido com um machado um cruci­fixo, etc. O inquisidor, frio e fúnebre, sentado ao fundo da casa de abóbada, mal alumiada por tochas presas em anéis de ferro às paredes, acreditaria no diabo e nos seu® aparecimentos? Porque não? Um doido torturava um idiota; e, no fundo escuro de uma cripta, a loucura dos homens tinha os seus ága­pes terríveis.

Demónios pareciam os verdugos, mudos e mas­carados, com o capuz e samarra de holandilha preta, onde havia os buracos dos olhos e da boca, movendo-se como autómatos a preparar os instrumentos da tortura; e de toda aquela gente, nem talvez o mé­dico, a um lado, a observar que a vida dos pacien­tes se não apagasse de todo, tivesse o juízo são. Desde que os homens se tinham considerado senho­res da verdade absoluta, a palavra de Deus enlouquecia-os e fazia deles monstros. Nessas tragédias lúgubres morria por vezes o miserável, na tortura ou no cárcere; e então era enterrado nas covas do palácio, sendo primeiro o esqueleto descarnado, reli­giosamente, para que os ossos pudessem figurar no Áuto-da-fé próximo, queimados na fogueira.

 

 

 

 



publicado por pimentaeouro às 20:26
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