Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
Falemos de Amor

FALEMOS DE AMOR

 

Amar uma coisa significa querer que ela viva.

CONFÚCIO

 

O texto que segue é seco árido, não tem romantismo nem poesia. Porque insisto em editá-lo? Porque o amor – ou a sua falta – tem uma importância decisiva nas nossas vidas, proporcionando-nos bem-estar, felicidade, ou, pelo contrário, sofrimento e dor.

As relações entre dois seres apaixonados são das mais complexas que existem. Quase todas as emoções que sentimos entram num jogo contraditório de atracção e repulsa, num turbilhão de contradições.

O amor tem diversos inimigos e o ciúme é dos mais poderosos, capaz de destruir relações muito fortes.

Será possível dissecar o amor em laboratório? Se isso um dia vier a acontecer, em lugar de uma vitória da ciência, teríamos uma derrota do ser humano, da sua imaginação, da sua aspiração à felicidade: romancistas e poetas seriam remetidos para o pó da História.

Como não existem escolas para ensinar a amar (o autor afirma que não existe uma ciência do amor), temos de aprender a amar empiricamente, com a vida.

Falar de amor implica falar de relações afectivas – um dos principais pilares da relação amorosa. O texto mostra-nos como a compreensão do sexo tem sido complicada e rodeada de tabus através dos séculos, até chegarmos à liberdade sexual que hoje existe nos países ocidentais.

Do tabu absoluto sobre o sexo passamos para a liberdade sexual… sem escola. A Educação Sexual que pretendemos ensinar nas escolas é pouco mais que uma boa intenção.

Teoricamente, os jovens de hoje sabem mais do que eu sabia, teoricamente… 

Desde que a sociedade burguesa foi criada existe o mito do homem másculo e viril e da mulher dócil e submissa (domesticada, no fundo).

Durante, praticamente todo o regime de Salazar as relações homem e mulher estavam subordinadas à moral católica (prolongamento do regime) e à família de tipo patriarcal. O texto refere com detalhe os preconceitos sociais que reprimiam eros.

O namoro era a antecâmara para o casamento e os pais, machos, ditavam as regras. Sofri por duas vezes os golpes desta tirania social.

O primeiro golpe que sofri foi no namoro com a Fernanda (UM FANTASMA) e o segundo mais profundo, em especial para a Julieta (PATER FAMÍLIAS). Jovens que viam as suas vidas destroçadas, às vez com consequências trágicas, contaram-se aos milhares e a literatura dos séculos XIX e XX e os filmes do princípio do século XX tiveram bastante matéria-prima com o tema.

Os jovens de hoje tem um conceito de namoro que não quem qualquer correspondência com o mesmo conceito até ao final do regime salazarista. Nem sonham a liberdade de que dispõem.

O amor continua a ser o principal caminho para felicidade mas tem inúmeros atalhos para o sofrimento.

Tema de muitos séculos, o meu sincero desejo é que continue a sê-lo no futuro com romantismo e muita poesia.

 

 


tags:

publicado por pimentaeouro às 20:50
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito (1)

Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2018
Passado longinquo
 
 

 

Sou como o narrador do conto "O fogo  e as cinzas" de Manuel da Fonseca, um velho falhado. Como ele rou o osso da memória, das memórias que me assediam mesmo que eu não queira. Regresso aos tempos longínquos da minha mocidade vivida em Torres Novas. Os dias corriam suaves, sem preocupações, com esperanças que se desfizeram. Sem que eu soubesse porque, a vida queria castigar-me.

Eu era um estranho, recem-chegado e duas mulheres escolheram-me: ainda hoje não sei porque, o que acharam em mim, com uma figura meio triste?

As escolhas do coração não passam pelo filtro da razão. Amamos e é quanto basta, na mocidade não existem cálculos de patrimónios, de bens herdados ou a herdar. Isso, só acontece mais tarde e não acontece sempre, o século XIX já lá vai.

  O meu primeiro amor foi com a Fernanda e a sua recordação ficou gravada nos recantos sinuosos da minha memória. Fernanda, recordo com saudade a tua ternura, a alegria dos teus olhos, os beijos ternos que trocamos, quase roubados.

.Namoro curto, igual a todos os namoros daquela época que terminou com uma imposição tua; inexperiente, não soube contornar o problema. Tinha corpo de homem mas a cabeça andava na Lua. Seguidamente namorei com a Julieta Fradinho, natural de Silves, filha de um funcionário do Tribunal, que terminou brutalmente com a proibição categórica do pai, à boa maneira do século XIX.

Julieta era o oposto da Fernanda, reservada, olhar triste sem os atributos de beleza da Fernanda; tinha mais maturidade do que eu e o amor já tinha criado raízes no seu coração.

Visto de fora, eu era um rebenta corações, na realidade, eu é que fiquei rebentado: para um jovem de vinte e poucos anos que se inicia   nos caminhos sinuosos do amor, dois insucessos seguidos deixam marcas fundas. Apesar disto, por estranho que pareça, tenho uma recordação muito grata – nos sentimentos não existe racionalidade - da Fernanda e da Julieta.

Não comentei estes insucessos com ninguém, lambi as feridas em solidão. Talvez por ter feito este recalcamento, agora tenho uma necessidade irreprimível de falar e escrever sobre eles.

 


tags: ,

publicado por pimentaeouro às 22:04
link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2018
Desejo de uma vida

FERNANDA.jpeg

 Os desejos podem concretizar-se através de sonhos? Isso não será uma ilusão?

Hoje, somos dois velhos que pouco tem em comum, dois desconhecidos sem nada para dizer um ao outro. As nossas vidas cruzaram-se há cerca de 50 anos, num amor breve. Porque nos separamos definitivamente, ainda hoje é um enigma para mim. Perdi o que mais necessitava, o teu amor, e cometi um dos maiores erros da minha vida.

Não necessitava só de amor, de uma família de filhos, tudo a que poderia aspirar.

Perdi, também, o remédio para a da minha intranquilidade que a tua ternura e serenidade podiam dar-me. O sonho de muitos anos concretizou-se ontem à noite sem que possa imaginar porque me aconteceu.

O sonho era uma mistura de passado e presente, de realidade e irrealidade. Conversei com o teu pai, já falecido, e perguntei-lhe se ainda se lembrava de mim. Depois disse-lhe que tinha sido teu namorado.

O real e o sonho confundem-se: falo com um dos teus dois filhos (no sonha eram cinco), jovem e muito louro. Pergunto-lhe também se já tinha ouvido falar de mim.

Em tua casa todos sabem que regressei a Torres Novas. Vozes que não identifico dizem-me que te pressionaram para o namoro acabar.

Entro no teu quarto. Estavas bela, como na juventude, com o teu sorriso meigo e tranquilo. Dirijo-me  para ti: choro e digo meu Deus, Fernanda, como foi possível encontrar-te?

O meu grande desejo de velho concretizou-se num sonho. À memória do meu amor acrescento o sonho de um encontro que não se realizará.

Senti a felicidade como poucas vezes aconteceu na minha vida.

 


tags:

publicado por pimentaeouro às 21:58
link do post | comentar | favorito (1)

Quinta-feira, 30 de Novembro de 2017
Pater Famílias

 

 

                                                

Não sei quando acabarei este texto, apesar de já o ter na minha cabeça há muitos anos e também não sei se o terminarei, pois além de mim não deve interessar a mais ninguém. Ainda menos sei se algum dia chegarás a lê-lo.

Em desespero propus um pacto ao Diabo: - Dou-te o resto dos meus dias se me contares o que aconteceu à Julieta depois daquela tarde infausta no distante princípio de verão do ano del 958(?).

O Diabo olhou-me de soslaio, virou-me as costas e foi-se embora. Certamente pensou, para que quero uma carcaça velha? 

Quando cheguei ao café do senhor Alfredo já estavas sentada, como de costume. Sentei-me à tua frente e pus o Diário de Lisboa em cima da mesa.

O café estava exactamente na mesma como há cinquenta anos: as cadeiras almofadadas, as mesas castanhas, a televisão a preto e branco, os mesmos clientes de sempre ( é como a minha memória consegue reproduzir).

Sorrimos um para o outro, os nossos olhos readquiriram o brilho da mocidade. Somos dois espíritos,  eu sou um cadáver insepulto. As pessoas falam comigo e não percebem que  estou morto, que não tenho nada para viver, apenas aguardo que me sepultem para, finalmente, descansar.

Sem dizermos nada, pensamos na mesma coisa: que nos aconteceu depois daquela tarde? Porque nunca mais nos encontramos? Porque terminamos o namoro daquela maneira? Um curto namoro com final muito infeliz!

Ambos temos muitas perguntas para fazer um ao outro, mas peço-te que me deixes falar primeiro.

Naquela época as raparigas, as mulheres, não frequentavam cafés. Tu e a tua madrasta, uma senhora educada, discreta e olhar triste, eram as únicas mulheres que iam ao café do senhor Alfredo à noite.

Mais invulgar ainda, numa pequena terra província, como Torres Novas.

As raparigas da tua idade ficavam em casa, a ajudar as mães nos trabalhos domésticos ou a preparam o enxoval. Eram educadas para casar e a escola ficava pela 4ª. Classe.

Foi nesses serões monótonos, quase todos iguais, que criamos a nossa cumplicidade: olhares mútuos prolongados e algumas frases de circunstância. Às vezes emprestava-te a Diário de Lisboa numa tentativa desajeitada e tímida de contacto.

Finalmente, decidi vencer a timidez (ainda hoje sou tímido) e declarar-me. Esperei-te na rua e dirigi-me para ti dizendo, não me lembro, exactamente como, que queria namorar contigo. Ansiosamente dei um salto no desconhecido.

Paras-te e olhando-me nos olhos perguntas-te - Porque tem essa conversa comigo?

Fiquei surpreendido, e depois de uma breve hesitação respondi, -Talvez esteja enganado mas penso que existe uma cumplicidade entre nós e eu não posso continuar nessa indefinição.

-É verdade – respondes-te, - Eu tenho alimentado a cumplicidade. Respirei fundo, mas logo surgiu outra pergunta, - A Fernanda (ex-namoro) diz que você tem vários defeitos. Não me lembro quais e sei que não estou isento deles.

Aqui fui mais rápido a decidir, - Se ela diz isso de mim eu não comento, assim como não faço qualquer comentário acerca da Fernanda.

- Tem razão, disseste, de ser  mexerico.

E assim, no meio de uma rua, prosaicamente, decidimos começar a namorar. Eras mais adulta do que eu, quando decidi declarar-me já tu tenhas tirado informações a meu respeito. Muito pouca coisa terás conseguido. Não era filho da terra, o meu único familiar em Torres Novas era um funcionário médio do Banco Nacional Ultramarino; o meu círculo de amigos era heterogéneo e modesto. Dois operários metalúrgicos, um tipógrafo, dois estudantes, um pequeno comerciante, três ou quatro empregados de comércio e um empregado de escritório, eu. Todos naturais de Torres Novas menos eu.

A única credencial com algum préstimo era a empresa onde trabalhava, uma firma ligada a uma família importante na região. Os sentimentos  falaram mais alto do que a razão e decidiste afoitamente aceitar o namoro.

Também deverás ter falado com a tua madrasta e com o teu pai (?). Houve um pormenor que me passou durante algum tempo , não me disseste para pedir ao teu pai autorização para namorar-te: uma regra social que há época nenhum pater famílias dispensava, pelo contrário, exigia.

Qualquer rapaz podia namorar duas ou três vezes, isso abrilhantava o seu currículo de macho, mas uma rapariga só podia ter um namoro e um casamento. Se tivesse namorado duas vezes isso já era suspeito, ficava «falada». 

O namoro era um ritual de iniciação, com regras e comportamentos estabelecidos pela sociedade, que terminava no casamento religioso. A noiva era obrigatoriamente virgem, o noivo fazia a iniciação sexual nas casas de prostitutas ou com a criada lá de casa, que depois era despedida, mesmo que estivesse grávida, por ser leviana.

 Eras uma rapariga inteligente, avançada para a época e além do casamento, que te interessa, tinhas outras motivações.

Pela minha parte, não fiz qualquer pergunta a ninguém a teu respeito ou da tua família, nem sequer, aos meus amigos. Uma ingenuidade? Simplesmente não me pareceu necessário: entraste na minha vida e isso era tudo o que eu queria.

A história do nosso namoro é curta, demasiado curta, mas foi tão marcante que ainda hoje está gravada na minha memória.

Íamos namorar para uma esplanada no Jardim da Avenida, que ladeava  o Almonda durante algumas centenas de metros: um local calmo, repousante, quase paradisíaco que deve ter assistido a incontáveis namoros de várias gerações.

Ias na companhia da tua madrasta que se tornava tão discreta que mal dávamos pela sua presença. Eu recordo o seu olhar triste e gostava de saber o motivo daquela tristeza.

Fazias-me várias perguntas sobre o meu comportamento, a minha maneira de ser, etc. Naturalmente, querias conhecer o homem – frágil - que escolheste.

Respondi-te sempre com sinceridade, talvez até com ingenuidade. Uma vez ou duas esboçaste gestos contidos de carícias. – o amor despontava . Em tão pouco tempo estávamos ambos na fase indelével do enamoramento, dos sentimentos que estão a nascer.  

Aqueles gestos esboçados, que não chegaste a fazer, foram bálsamo para o meu corpo e o meu espírito.

Num desses encontros - Disseste-me que ias passar uns dias a Sintra – adoravas Sintra, pela sua reconhecida beleza, e certamente pelo ambiente social mais aberto do que o da província, porque tinhas lá família, amigas etc.  e sugeriste-me que fosse lá passar um domingo.

Achei a ideia óptima e combinámos o nosso encontro em Sintra. Cheguei no sábado ao fim do dia e fiquei hospedado numa pensão que ficava perto da estação de comboios e da casa onde estavas (de família?).

No domingo de manhã encontrámo-nos num jardim. Estavas acompanhada por uma prima, uma rapariga simpática, extrovertida e que também foi discreta – ou nós estávamos apenas concentrados um no outros e não dávamos pelo que se passava à nossa volta.

Foi uma manhã muito agradável, que passou  depressa. Fizeste humor com a pensão, dizendo que da tua janela controlavas as minhas entradas e saídas…

Conversamos sobre tudo e sobre nada, conversa de jovens felizes: sentia-me no paraíso.

Sem modéstia, acrescento que a minha conversação não era desagradável, tinha um vocabulário alargado e utilizava com muita frequência metáforas, como faço ainda hoje.

Combinámos encontrar-nos depois do almoço na janela da casa onde estavas.

À hora combinada compareci. O que  deveria ser o enlevo do nosso primeiro encontro a sós, do nosso desejado primeiro beijo, à janela da casa da tua madastra, em poucos segundos tornou-se um drama.

Entraste na sala a chorar compulsivamente e ficaste a meio da mesma sem te aproximares da janela : fiquei atónito, paralisado, caiu-me o céu em cima da cabeça. 

- Que se passa? - Que te aconteceu? E o choro não parava, convulsivo (nunca na minha vida, até aos dias de hoje, vi uma mulher chorar assim) Quando conseguiste acalmar ou pouco – pareceu-me uma eternidade – Disseste, o nosso namoro tem de  acabar.

A minha perplexidade aumentou, - Mas o que está a acontecer?  - Temos de terminar o namoro porquê?

Depois de um silêncio, respondes-te, - O meu pai não quer que namoremos.

- Eu falo com ele, - como pode ser isso? Respondeste-me - Que nada adiantava e que se eu insistisse era pior para ti.

Fiquei outra vez paralisado, sem saber o que dizer e o que fazer. Perdi a oportunidade de acariciar-te e beijar-te pela primeira e única vez: sou um perdedor.

Já não me lembro como me afastei da janela nem como regressei a Torres Novas, apenas me lembro que regressei de comboio

Durante  um mês ou mais senti-me infeliz, humilhado, ostracizado e com uma grande melancolia. Depois chegou a revolta e passaram-me pela cabeça as ideias mais disparatadas. Felizmente, ou infelizmente, não concretizei nenhuma.

O teu almoço daquele domingo deve ter sido um enorme pesadelo para ti - revolta, angustia, desespero, tristeza -  pois foi certamente nessa ocasião que o teu pai impôs a sua vontade. Deu-te um punhal e ordenou-te que o cravasses no coração. Uma brutalidade!

Tu eras maior de idade, responsável e no dia em que me convidas--te para ir a Sintra ele impôs o rompimento do namoro. - Julieta, perdoa-me o julgamento mas eu tinha que acertar estas contas com o teu pai. Como pudeste sarar a ferida que o teu pai abriu no teu coração? Ainda hoje não encontrei resposta para esta angústia que me atormenta.

Nos seus cálculos patrimoniais acerca do teu casamento não contavam os teus sentimentos nem o direito de seres tu a decidir o teu  futuro.

Pater famílias tinha braço comprido e às vezes musculado. Naquela época era o «chefe de família»  quem autorizava  a mulher a abrir conta bancária,  tirar passaporte, decidia o futuro dos filhos, particularmente, o casamento das filhas, etc, etc.

Mulher não podia votar, frequentar a universidade (só excepções) ir sozinha a lugares públicos, festas, cinema, etc. Não podia fumar, beber, usar roupas ousadas, decotes acentuados. O lugar seguro para estar era em casa, executando os trabalhos domésticos e tratando dos filhos.  Podia ser amante, não podia ter amantes.

O que terá levado o teu pai a impor o rompimento do namoro poucas semanas depois de não se ter oposto?

Não é difícil perceber. Admito duas hipóteses, foi averiguar pessoalmente o meu currículo. Não tinha vinhas, nem oliveiras, não tinha imóveis nem família que se visse, um pé rapado. - A minha filha casada com um pé rapado que quer dar o golpe do baú? - Era o que faltava!   

Segunda hipótese, um dos meus amigos do grupo tinha fama de «subversivo» e isso contagiava a reputação do resto do grupo, o que, pelo menos, no meu caso não era verdade.

Quanto às questões patrimoniais (nunca soube se tinhas baú) as minhas ideias sobre a propriedade eram, e ainda são, muito vagas : vou sair como entrei, com a conta bancária a zeros.

Não sei como ficaram as tuas relações com o teu pai, se chegas-te a perdoar  o golpe e humilhação, se ficou uma ferida que só o tempo pode curar em parte. Não pretendo inventar ou ficcionar a tua vida, apenas desejo saber o que se passou contigo.

Gostaria imenso de saber que encontras-te outro homem que te fez feliz como tu merecias.

Tínhamos direito a ser felizes e não fomos, talvez porque nascemos vinte anos mais cedo, na época errada.

Dramas como o teu, aconteceram, nas mais variadas formas, a milhares de raparigas que os sofreram em silêncio e poucas tiveram coragem – ou meios - para romper com a família.

Na sociedade conservadora e machista criada pelo salazarismo, o domínio do pater família era exercido num silêncio repressivo que só de forma muito discreta e em voz baixa era censurado.

Transformei o nosso diálogo num monólogo, talvez seja egoísta. Afinal a tua ansiedade é maior do que a minha.

Agora que somos dois espíritos podemos tranquilamente reviver, em conjunto, as nossas vidas, passeando despreocupadamente pela Jardim da Avenida, pelo café do senhor Alfredo, em Sintra, onde quisermos: ninguém pode interferir nas nossas novas vidas!

Trouxe um poema de Florbela Espanca para te oferecer, julgo que vais gostar:

 

PRIMAVERA

 

É Primavera agora, meu Amor!

O campo despe a veste de estamenha;

Não há árvore nenhuma que não tenha

O coração aberto, todo em flor!

 

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor

Da vida ... não há bem que nos não venha

Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!

Não há bem que não possa ser melhor!

 

Também despi meu triste burel pardo,

E agora cheiro a rosmaninho e a nardo

 E ando agora tonta, à tua espera ...

 

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos ...

 Parecem um rosal! Vem desprendê-los!

Meu Amor, meu Amor, é Primavera! ...

 

 

P.S.

1- Não tenho memória para reter pormenores, detalhes,  aromas, cores, sonoridades, não tenho vocabulário afectivo para exprimir convenientemente o turbilhão das emoções e sentimentos que existem dentro de mim, por isso este texto é seco, árido, talvez monótono, mas acredita que é sincero. Á distância de cinquenta anos, os diálogos que reproduzo podem não corresponder exactamente ao que foi dito por ambos, mas creio não ter adulterado o seu sentido.

 


tags: ,

publicado por pimentaeouro às 10:37
link do post | comentar | ver comentários (7) | favorito (2)

Domingo, 26 de Novembro de 2017
Amor triste

 

Ambos bebemos o cálice, ignorando que continha fel. Os meus olhos só viam os teus. Os teus olhos só viam os meus.

O teu sorriso era discreto, quase pudico, o meu era mais expansivo e descuidado – nunca mais foi. Amávamo-nos com a ingenuidade da mocidade, vivíamos o presente e o futuro sem sombras.

Hoje, há distância de décadas, passeio pelas ruas por onde andavas; sento-me no café onde ias ver televisão, na companhia da tua madrasta, segunda mãe, que te acompanhava discreta como se estivesse ausente.

Sento-me na mesa da esplanada, junto ao rio, em tardes quentes de verão, onde conversávamos. Relembro os diálogos despreocupados e a tua ternura contida, o teu gesto interrompido de fazer-me uma carícia na cara.

A felicidade, tocava-nos levemente, tudo era natural e simples. Chamavas-te Julieta, eu, simplesmente, João.

 O que deveria ser o enlevo do nosso primeiro encontro a sós, do nosso desejado primeiro beijo, à janela da casa da tua madastra, em poucos segundos tornou-se um drama.

O que se seguiu é demasiado triste e não quero recordá-lo.


tags:

publicado por pimentaeouro às 17:40
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito (1)

Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
O sonho de uma vida

FERNANDA.jpeg

  

Os desejos podem concretizar-se através de sonhos? Isso não será uma ilusão?

Hoje, somos dois velhos que pouco tem em comum, dois desconhecidos sem nada para dizer um ao outro. As nossas vidas cruzaram-se há cerca de 50 anos, num amor breve. Porque nos separamos definitivamente, ainda hoje é um enigma para mim. Perdi o que mais necessitava, o tem amor, e cometi um dos maiores erros da minha vida.

Não necessitava só de amor, de uma família de filhos, tudo a que poderia aspirar.

Perdi a cura da minha intranquilidade que a tua ternura e serenidade podiam dar-me. O sonho de muitos anos concretizou-se ontem à noite sem que possa imaginar porque me aconteceu.

O sonho era uma mistura de passado e presente, de realidade e irrealidade. Conversei com o teu pai, já falecido, e perguntei-lhe se ainda se lembrava de mim. Depois disse-lhe que tinha sido teu namorado.

O real e o sonho confundem-se: falo com um dos teus  filhos (no sonho eram cinco), jovem e muito louro. Pergunto-lhe também se já tinha ouvido falar de mim.

Em tua casa todos sabem que regressei a Torres Novas. Vozes que não identifico dizem-me que te pressionaram para o namoro acabar.

Entro no teu quarto. Estavas bela, como na juventude, com o teu sorriso meigo e tranquilo. Dirijo-me  para ti: choro e digo meu Deus, Fernanda, como foi possível encontrar-te?

O meu grande desejo de velho concretizou-se num sonho. À memória do meu amor acrescento o sonho de um encontro que não se realizará.

Senti a felicidade como poucas vezes aconteceu na minha vida.

 


tags:

publicado por pimentaeouro às 20:52
link do post | comentar | favorito

Sábado, 12 de Agosto de 2017
Nunca saberei

Volvidos  cerca de 50 anos regressei a Torres Novas, terra onde vivi a mocidade. Foi lá que tive os meus dois primeiros amores, tardios.

A viagem foi de camionete, pela margem esquerda do Tejo, com paragem em todas as aldeias. Hopedei-me num hotel com vista para a praça 5 de Outubro e perguntei a um amigo daquela data onde residiam Fernanda e Julieta. Deu-me a morada da Fernanda e do Irmão António, da Julieta não havia rasto.

Fernanda e Julieta eram duas jovens completamente diferentes: Fernanda era meiga, expansiva e alegre. Alta e bonita, talvez uma das jovens mais bonitas de Torres Nova, Julieta era o oposto, reservada, baixa sem atractivos especiais.

Tímido, como sempre fui, comecei por procurar o irmão que se encontrava debilitado com dificuldade em andar. Quem me atendeu foi a mulher e combinamos que o António iria ter a um café perto de sua casa.

Passado cerca de meia hora como o António não aparecesse voltei a sua casa e para minha surpresa ninguém me atendeu. Não percebi a recusa em falar comigo nem que motivos poderia ter, sempre fomos bons amigos e nunca tivemos qualquer desavença.

Deduzi que uma visita à Fernanda não seria bem recedida. O meu desejo de voltar a ver a Fernanda ficou enterrado.


tags: ,

publicado por pimentaeouro às 22:30
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito (1)

Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017
Amor antigo

Resultado de imagem para rosas

 

Algumas mulheres perdem-se pelo amor e pagam caro, às vezes demasiado caro: há feridas interiores que a memória nunca deixa sarar. O preço que tu pagaste foi demasiado elevado e foi e teu próprio pai quem o impôs.

Naquela época (meados dos anos 50) era muito raro uma rapariga aceitar namoro sem a prévia autorização dos pais. Decidis-te sem essa autorização e, mais ainda, eu era praticamente desconhecido em Torres Novas: foi um forte impulso do teu coração (eu merecia essa audácia?).

Tivemos dois namoros, o primeiro foi mudo. Só os nossos olhos conversavam. Os meus olhos procuravam os teus, os teus olhos procuravam os meus e olhávamo-nos longamente. Era uma procura mútua com emoções ambiguas: o amor tacteava no desconhecido, o desejo de nos conhecermos, de nos encontrarmos. Era uma atracção mútua que nos dominava, sentimentos que despontavam como uma primavera.

Depois tivemos cerca de um mês de namoro, se é lhe posso chamar namoro. Viveste o encantamento de teres encontrado o homem que procuravas para amar, o pai dos teus filhos – a maternidade cantava melodias ao teu ouvido de mulher, melodias que só tu ouvias – um companheiro para a tua vida onde já existia a solidão da morte da tua mãe.

Eras uma mulher inteligente, avançada para a tua, a nossa época, e o teu horizonte não se confinava só ao casamento, à vida conservadora e parada de uma pequena cidade de província, conhecias horizontes mais abertos de outros meios.

A tua maior atenção era conheceres o homem – frágil – que tinhas escolhido. Irias conseguir viver com as minhas fragilidades?

Durante um breve mês viveste a esperança de ser feliz, espuma que o vento dissipou.

Existo na tua memória? Como? Com ternura ou como um pesadelo que não devia ter acontecido?

O que me importa é saber – nunca o saberei! - que foste mulher e mãe com outro homem e que foste feliz. Era isso que tu merecias.

Aquele efémero namoro ficou gravado na minha memória, bem como o prolongado sofrimento e frustração que passei.

Há distância de mais de cinquenta anos que interesse tem esta história? Tem para mim e, quem sabe, também terá ou teve para ti.

 

O amor antigo tem raízes fundas,

 feitas de sofrimento e de beleza.”


 e a recordação do teu  amor já é independente da minha vontade, é uma coisa que me domina e que não posso controlar, lembro-me te ti quando menos espero e com frequência não consigo evitar as lágrimas.

Parece-me quase infantil estar a escrever este post, mas a memória é mais forte do que eu e não consigo evitá-lo.

Afinal, o ridículo acontece a todos, talvez os poetas compreendam isto.

 

AMOR ANTIGO

O amor antigo vive de si mesmo
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

 

 


tags: ,

publicado por pimentaeouro às 18:51
link do post | comentar | favorito (1)

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2017
Amor1

FALEMOS DE AMOR

 

Amar uma coisa significa querer que ela viva.

CONFÚCIO

 

O texto que segue é seco árido, não tem romantismo nem poesia. Porque insisto em editá-lo? Porque o amor – ou a sua falta – tem uma importância decisiva nas nossas vidas, proporcionando-nos bem-estar, felicidade, ou, pelo contrário, sofrimento e dor.

As relações entre dois seres apaixonados são das mais complexas que existem. Quase todas as emoções que sentimos entram num jogo contraditório de atracção e repulsa, num turbilhão de contradições.

O amor tem diversos inimigos e o ciúme é dos mais poderosos, capaz de destruir relações muito fortes.

Será possível dissecar o amor em laboratório? Se isso um dia vier a acontecer, em lugar de uma vitória da ciência, teríamos uma derrota do ser humano, da sua imaginação, da sua aspiração à felicidade: romancistas e poetas seriam remetidos para o pó da História.

Como não existem escolas para ensinar a amar (o autor afirma que não existe uma ciência do amor), temos de aprender a amar empiricamente, com a vida.

Falar de amor implica falar de relações sexuais – um dos principais pilares da relação amorosa. O texto mostra-nos como a compreensão do sexo tem sido complicada e rodeada de tabus através dos séculos, até chegarmos à liberdade sexual que hoje existe nos países ocidentais.

Do tabu absoluto sobre o sexo passamos para a liberdade sexual… sem escola. A Educação Sexual que pretendemos ensinar nas escolas é pouco mais que uma boa intenção.

Durante vários anos pratiquei relações sexuais «mecânicas» (a minha mulher também não sabia) e foi já adulto feito que aprendi a fazer sexo (há época, sexo era coisa de libertinos e de mulheres debochadas).

Teoricamente, os jovens de hoje sabem mais do que eu sabia, teoricamente…

 

 

Desde que a sociedade burguesa foi criada existe o mito do homem másculo e viril e da mulher dócil e submissa (domesticada, no fundo).

Durante, praticamente todo o regime de Salazar as relações homem e mulher estavam subordinadas à moral católica (prolongamento do regime) e à família de tipo patriarcal. O texto refere com detalhe os preconceitos sociais que reprimiam eros.

O namoro era a antecâmara para o casamento e os pais, machos, ditavam as regras. Sofri por duas vezes os golpes desta tirania social.

O primeiro golpe que sofri foi no namoro com a Fernanda (UM FANTASMA) e o segundo mais profundo, em especial para a Julieta (PATER FAMÍLIAS). Jovens que viam as suas vidas destroçadas, às vez com consequências trágicas, contaram-se aos milhares e a literatura dos séculos XIX e XX e os filmes do princípio do século XX tiveram bastante matéria-prima com o tema.

Os jovens de hoje tem um conceito de namoro que não quem qualquer correspondência com o mesmo conceito até ao final do regime salazarista. Nem sonham a liberdade de que dispõem.

O amor continua a ser o principal caminho para felicidade mas tem inúmeros atalhos para o sofrimento.

Tema de muitos séculos, o meu sincero desejo é que continue a sê-lo no futuro com romantismo e muita poesia.

 

 


tags:

publicado por pimentaeouro às 12:01
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017
Memórias

Amigo António,

Não receberás esta carta, mas continuo a escreve-la como se fosse enviá-la pelo correio. Não respondes-te à minha primeira carta e, assim, não terás que responder a esta: afinal, os amigos também se esquecem.

A minha sogra faleceu perto dos noventa anos. Passava os dias cantarolando cantigas de quando fora jovem e histórias de amigas, a maior parte delas, já falecidas.

A natureza, sabiamente, retira aos velhos a memória de curta duração, não se lembram do que aconteceu na semana anterior, e devolve-lhes a memória do passado distante, a chamada memória de longa duração: mais ano menos ano, acontece e todos. Parece-me que sou precoce, já vivo mergulhado na memória de longo prazo, principalmente a memória da minha juventude ( a fase mais importante da existência ) vivida aí, em Torres Novas.

Esta dádiva da natureza tem um preço, a memória antiga é traiçoeira , omite, distorce factos e acontecimentos, fantasia o passado, temos que ser prudentes com ela: até os que escrevem livros de memórias não escapam a esta realidade. A memória é imperfeita e complexa como nós.

Recordo com muita saudade os amigos que ai conheci (convivi com dois em Lisboa, o Francisco Canais Rocha e o António Graça, falecido ainda novo) e, paradoxalmente dois insucessos amorosos, com a tua irmã e seguidamente com a Julieta Fradinho, natural de Silves, filha de um funcionário do Tribunal (com cara de poucos amigos, nunca o vi com uma companhia), que terminou brutalmente com a proibição categórica do pai, à boa maneira do século XIX.

 

Sempre ouvi dizer que o primeiro amor nunca se esquece e julgava que eram histórias de livros, mas é verdade, acontece mesmo. O meu primeiro amor foi com a tua irmã e a sua recordação ficou gravada nos recantos sinuosos da  minha memória.

Namoro curto, igual a todos os namoros daquela época e terminou com uma imposição que, inexperiente, não soube contornar.

Visto de fora, eu era um rebenta corações, na realidade, eu é que fiquei rebentado: para um jovem de vinte e poucos anos que se inicia   nos caminhos tortuosos do amor, dois insucessos seguidos deixam marcas fundas. Apesar disto, por estranho que pareça, tenho uma recordação muito grata – nos sentimentos não existe racionalidade - da Fernanda e da Julieta.

Não comentei estes insucessos com ninguém, lambi as feridas em solidão. Talvez por ter feito este recalcamento, agora tenho uma necessidade irreprimível de falar e escrever sobre eles.

Por obra do acaso, o grande fazedor e desfazedor de vidas, conheci na Net, um conterrâneo do Algarve, a viver em Sintra, e que conhece a Julieta. Deu-me o seu endereço e irei procura-la se saúde permitir.

Gostaria igualmente de voltar a ver a tua irmã mesmo que ela tenha uma memória desfavorável de mim: aos oitenta anos, doente, na idade do perdão, não tenho necessidade de enganar ninguém. Sei que ela está casada com o Arlindo e julgo que o conheço.

Há uns meses convidaram-me para um concurso de blogues. Tinha que apresentar uma resenha «biográfica» e saiu-me o texto que junto a esta carta. Dá uma síntese das minhas andanças.

Desejo a continuação das tuas melhoras e despeço-me com um abraço e cumprimentos para a tua esposa.

 


tags: , ,

publicado por pimentaeouro às 18:52
link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 8 de Setembro de 2016
Julieta

 

Ainda existo na tua memória? Como a saudade de um encontro feliz ou como um pesadelo que nunca deveria ter acontecido na tua vida?

Éramos dois jovens e apenas queríamos amor como todos os jovens desejam. Por imposição do teu pai o nosso namoro teve que acabar. Convidaste-me para nos encontrarmos em Sintra e foste obrigada a mandar-me embora como se eu fosse um oportunista que queria enganar-te.

A dor daquela violência foi mais profunda no teu coração: o amor já tinha raízes em ti. Ambos tivemos uma mocidade triste, já eras órfã da tua mãe e eu era órfão de pais vivos.

A tua vida é uma incógnita para mim, nunca mais te voltei a ver – como foi possível isto acontecer? Apenas sei que emigras-te para Londres numa época em que poucas mulheres o faziam, não foi emigração foi um exílio, exilaste-te do teu pai.

Regressaste, não sei quando, casada com um inglês, e refugiaste-te na serra de Sintra, na Sintra que tu amavas. Uma senhora muito reservada diz-me que te conhece: também sou reservado, a vida fez-nos assim.

Mais uma vez o acaso, o grande fazedor e desfazedor de vidas, não quis que nos reencontrássemos. Desejava muito que a última recordação que tenho de ti não fosse aquele choro convulsivo que selou a nossa separação há sessenta anos.


tags: ,

publicado por pimentaeouro às 00:17
link do post | comentar | ver comentários (5) | favorito (1)

Sexta-feira, 6 de Maio de 2016
Amor antigo

Julieta.jpg

 

 
Algumas mulheres (talvez muitas) perdem-se pelo amor e pagam caro, às vezes demasiado caro: há feridas interiores que a memória nunca deixa sarar. O preço que tu pagaste foi  elevado e foi e teu próprio pai quem o impôs.

Naquela época (meados dos anos 50) era muito raro uma rapariga aceitar namoro sem a prévia autorização dos pais. Decidis-te sem essa autorização e, mais ainda, eu era praticamente desconhecido em Torres Novas: foi um forte impulso do teu coração (eu merecia essa audácia?).

Tivemos dois namoros, o primeiro foi mudo. Só os nossos olhos conversavam. Os meus olhos procuravam os teus, os teus olhos procuravam os meus e olhávamo-nos longamente. Era uma procura mútua com emoções ambíguas: o amor tacteava no desconhecido, o desejo de nos conhecermos, de nos encontrarmos. Era uma atracção mútua que nos dominava, sentimentos que despontavam como uma primavera.

Depois tivemos cerca de um mês de namoro, se é lhe posso chamar namoro. Viveste o encantamento de teres encontrado o homem que procuravas para amar, o pai dos teus filhos – a maternidade cantava melodias ao teu ouvido de mulher, melodias que só tu ouvias – um companheiro para a tua vida onde já existia a solidão da morte da tua mãe.

Eras uma mulher inteligente, avançada para a tua, a nossa época, e o teu horizonte não se confinava só ao casamento, à vida conservadora e parada de uma pequena cidade de província, conhecias horizontes mais abertos de outros meios.

A tua maior atenção era conheceres o homem – frágil – que tinhas escolhido. Irias conseguir viver com as minhas fragilidades?

Durante um breve mês viveste a esperança de ser feliz, espuma que se dissipou como se o vento a tivesse levado: uma proibição do teu pai, como se faziam no século XIX, impos o fim do namoro.

Existo na tua memória? Como? Com ternura ou como um pesadelo que não devia ter acontecido?

O que me importa é saber – nunca o saberei! - que foste mulher e mãe com outro homem e que foste feliz. Era isso que tu merecias.

Aquele efémero namoro ficou gravado na minha memória, bem como o prolongado sofrimento e frustração que passei.

Há distância de  mais de cinquenta anos que interesse tem esta história? Tem para mim e, quem sabe, também terá para ti.

  

"O amor antigo tem raízes fundas,

feitas de sofrimento e de beleza.”

 

Parece-me quase infantil estar a escrever este post, mas a memória é mais forte do que eu e não consigo evitá-lo.

Afinal, o ridículo acontece a todos, talvez algum poeta compreenda isto.

 

 

 


tags: ,

publicado por pimentaeouro às 15:49
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito (1)

Sexta-feira, 29 de Abril de 2016
Mocidade, a minha também  

 

Nota prévia

Este texto parecerá estranho às gerações de hoje que nasceram numa sociedade livre e também com liberdade sexual.

 

Existe uma geração de historiadores, pós Mattoso, alguns são ou foram seus alunos, que fazem uma nova abordagem da história nacional até aí dominada por valores ideológicos e retrogados.

Isabel Freire acaba de publicar “Amor e sexo no tempo de Salazar”, um tema que parece menor mas não é: trata da frustração e do sofrimento de milhares de mulheres e de homens também.

Entre as fontes de consulta, Isabel Freire entrevistou um grupo de homens e mulheres a partir dos 70 anos de idade. Avós e bisavós.

A autora do livro não me conhece de lado nenhum e não me entrevistou. Pessoalmente, tenho pena porque foi vítima, por duas vezes da moral e dos bons costumes do Estado Novo, de Salazar e Cerejeira.

No ano de 1.955, em meado da «década dourada» dos anos 50, completei 20 anos, mas era  apenas um adolescente crescido: ingénuo, talvez imaturo e idealista (vicio transmitido por  leituras de poesia), a minha autoconsciência teve um processo de formação tardio e acidentado.

O regime salazarista, por baixo sofria alguns revezes – agitação social que a sangria da emigração em parte atenuava e nos anos de 1.955 e 1.956 reforçou os poderes arbitrários da PIDE, mas no plano ideológico, quer a máquina de propaganda, quer as instituições de controlo social – particularmente da mulher – estavam todas montadas (Mocidade Portuguesa, Mocidade Portuguesa Feminina, revistas especialmente dirigidas à jovem e à mulher) Secretariado Nacional da Informação, etc. e, claro a acção da Igreja Católica e do baixo clero.

Os valores conservadores da Igreja tinham como alvo principal controlar as famílias e domesticar as mulheres, “ o dogma da

 autoridade masculina e da submissão feminina, o dogma virilidade dos homens e da castidade das mulheres, o dogma da interdição do corpo e do pecado sexual, o dogma do casamento sacramental e o dogma da maternidade redentora, marcaram e ferros António e muitos outros homens e mulheres da sua geração”, do livro acima citado.  

O regime salazarista possuía duas máquinas de repressão; a PIDE para os opositores políticos as suas instituições aliadas à Igreja para o controlo social e a repressão sexual. A mulher e o seu corpo interdito eram o alvo principal, o sexo extra matrimonial era pecado e a mulher a potencial pecadora.

Eu não percebia nada deste subtil mundo de interditos e pecados e de muitas outras coisas. A minha iniciação sexual (com colegas de trabalho) foi feita nas casa de prostituição, não sabia o que era o amor  e conhecia mal, muito mal, o mundo feminino, que era vigiado pelos controladores da moral e dos bons costumes e se encontravam interiorizados na consciência colectiva.

Nos dourados anos 50 do regime salazarista eu era um ignorante e simultaneamente uma vítima – apenas mais uma – da ideologia do Estado Novo.

Por duas vezes fui reprimido pelos bons costumes e das duas   ficaram-me marcas profundas.

Da minha geração milhares de mulheres e de homens foram frustrados sexualmente  (coisa que parece impossível nos dias de hoje ) e ainda hoje sentem as marcas das suas frustrações.

Vou terminar, por hoje, para que esta memória não pareça (não parece?) uma manifestação de frustação.

 

P.S.

Reeditado



publicado por pimentaeouro às 22:42
link do post | comentar | ver comentários (6) | favorito (2)

Terça-feira, 12 de Abril de 2016
Um sonho

Resultado de imagem para flores hortensias

 

Os desejos podem concretizar-se através de sonhos? Isso não será uma ilusão?

Hoje, somos dois velhos que pouco tem em comum, dois desconhecidos sem nada para dizer um ao outro. As nossas vidas cruzaram-se há cerca de 60 anos, num amor breve. Porque nos separamos definitivamente, ainda hoje é um enigma para mim. Perdi o que mais necessitava, o teu amor, e cometi um dos maiores erros da minha vida. 

 

Necessitava  de amor, de uma família de filhos, tudo a que poderia aspirar.

Perdi, também, o remédio para a da minha intranquilidade que a tua ternura e serenidade podiam dar-me. O sonho de muitos anos concretizou-se ontem à noite sem que possa imaginar porque me aconteceu.

O sonho era uma mistura de passado e presente, de realidade e irrealidade. Conversei com o teu pai, já falecido, e perguntei-lhe se ainda se lembrava de mim. Depois disse-lhe que tinha sido teu namorado.

O real e o sonho confundem-se: falo com um dos teus dois filhos (no sonha eram cinco), jovem e muito louro. Pergunto-lhe também se já tinha ouvido falar de mim.

Em tua casa todos sabem que regressei a Torres Novas. Vozes que não identifico dizem-me que te pressionaram para o namoro acabar.

Entro no teu quarto. Estavas bela, como na juventude, com o teu sorriso meigo e tranquilo. Dirijo-me  para ti: choro e digo meu Deus, Fernanda, como foi possível encontrar-te?

O meu grande desejo de velho concretizou-se num sonho. À memória do meu amor acrescento o sonho de um encontro que não se realizará.

 

 


tags: ,

publicado por pimentaeouro às 13:43
link do post | comentar | ver comentários (7) | favorito

Quinta-feira, 24 de Março de 2016
Passado longinquo

 

Sou como o narrador do conto "O fogo  e as cinzas" de Manuel da Fonseca, um velho falhado. Como ele rou o osso da memória, das memórias que me assediam mesmo que eu não queira. Regresso aos tempos longínquos da minha mocidade vivida em Torres Novas. Os dias corriam suaves, sem preocupações, com esperanças que se desfizeram. Sem que eu soubesse porque, a vida queria castigar-me.

Eu era um estranho, recem-chegado e duas mulheres escolheram-me: ainda hoje não sei porque, o que acharam em mim, com uma figura meio triste?

As escolhas do coração não passam pelo filtro da razão. Amamos e é quanto basta, na mocidade não existem cálculos de patrimónios, de bens herdados ou a herdar. Isso, só acontece mais tarde e não acontece sempre, o século XIX já lá vai.

  O meu primeiro amor foi com a Fernanda e a sua recordação ficou gravada nos recantos sinuosos da minha memória. Fernanda, recordo com saudade a tua ternura, a alegria dos teus olhos, os beijos ternos que trocamos, quase roubados.

.Namoro curto, igual a todos os namoros daquela época que terminou com uma imposição tua; inexperiente, não soube contornar o problema. Tinha corpo de homem mas a cabeça andava na Lua. Seguidamente namorei com a Julieta Fradinho, natural de Silves, filha de um funcionário do Tribunal, que terminou brutalmente com a proibição categórica do pai, à boa maneira do século XIX.

Julieta era o oposto da Fernanda, reservada, olhar triste sem os atributos de beleza da Fernanda; tinha mais maturidade do que eu e o amor já tinha criado raízes no seu coração.

Visto de fora, eu era um rebenta corações, na realidade, eu é que fiquei rebentado: para um jovem de vinte e poucos anos que se inicia   nos caminhos sinuosos do amor, dois insucessos seguidos deixam marcas fundas. Apesar disto, por estranho que pareça, tenho uma recordação muito grata – nos sentimentos não existe racionalidade - da Fernanda e da Julieta.

Não comentei estes insucessos com ninguém, lambi as feridas em solidão. Talvez por ter feito este recalcamento, agora tenho uma necessidade irreprimível de falar e escrever sobre eles.



publicado por pimentaeouro às 21:39
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
posts recentes

Falemos de Amor

Passado longinquo

Desejo de uma vida

Pater Famílias

Amor triste

O sonho de uma vida

Nunca saberei

Amor antigo

Amor1

Memórias

arquivos
tags

???

ambição

amizade

amor

animais

antropologia

armas

arquitectura

arte

arte biografias

astronomia

ballet

biografias

biologia

blogues

café curto

carttons

ciência

cinema

civilização

clima

corrupção

criminosos

crise financeira

demagogia

demência

demografia

descobrimentos

desemprego

destino

diversos

doenças

dor

economia

eleiçoes

ensino

escravatura

escultura

estado

estupidez

eternidade

ética

eu

eutanásia

evolução

família

filosofia

futebol

genocídio

governo

greves

guerra

história

incendios florestais

inquisição

internacional

justiça

literatura

livros

memória

miséria

mitologia

morte

mulher

mulheres célebres

musica

natureza

natureza humana

paisagens

paleontologia

partidos políticos

patologia ideológica

pátria

pintura

planeta terra

pobreza

poesia

politica

regime político

religião

saudade

saúde

segurança social

sentimentos

sexo

sindicatos

sociedade

sofrimento

sonhos

tecnologia

terrorismo

terrorismo de estado

testamento vital

tristeza

união europeia

universo

velhice

vida

violência

xadrez

todas as tags

favoritos

Anjo

Enamorados

Sonhar

Podem...

Voz da alma

Mentira

Escrever

À luz da lua

Meu amor

Dilemas

links
últ. comentários
Já não era sem tempo!!!
E para quando um novo post por aqui?Tenho sentido ...
Gostei
Igualmente para si e sua família com muitas amend...
E hoje estou a passar por aqui para desejar uma Bo...
Por vezes mais vale consolidar o que já se tem em ...
Felizmente ou não, não estaremos cá para ver.
É duvidoso que seja.
Daqui a 100 anos, será uma lista tão grande, mas t...
blogs SAPO
RSS