Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2017
Origem da civilização
Civilização é um complexo conceito da antropologia e história. Numa perspectiva evolucionistaé o estágio mais avançado de determinada sociedade humana, caracterizada basicamente pela sua fixação ao solo mediante construção de cidades, daí derivar do latim civita que designa cidade e civile (civil) o seu habitante. Observe-se que essa noção traduz os conceitos etnocêntricos do início da antropologia onde se contrapõe as sociedades complexas às primitivas. É nesse contexto que também aparece a sequência evolutiva selvajaria - barbárie - civilização, entendida por Gordon Childe[1] como os estágios evolutivos obrigatórios das sociedades antigas desde a passagem de um sistema social/econômico/tecnológico de caçadores-coletores ("selvageria") para agricultores e pastores ("barbárie") até a concentração em cidades e divisão social ("civilização"). É Gordon Childe que populariza os conceitos de revolução neolítica (ou revolução agrícola) e revolução urbana para marcar a passagem entre tais estágios evolutivos da humanidade. Para Darcy Ribeiro,[2] a revolução sociocultural consiste no movimento histórico de mudança dos modos de ser e de viver dos grupos humanos, desencadeado pelo impacto de sucessivas revoluções tecnológicas (agrícola, industrial, etc.) sobre sociedades concretas, tendentes a conduzi-las à transição de uma etapa a outra, ou de uma a outra formação sociocultural.
Observe-se porém, como ressalva Matias[3] que tal conceito de evolução difere da perspectiva evolucionista nos estudos clássicos da antropologia, pois considera o movimento de evolução sociocultural como um processo complexo de civilização, marcado por mudanças e permanências, seja por aceleração evolutiva (ou estagnação cultural) devido à dinâmica da própria cultura, seja por atualização ou incorporação histórica devido a contatos interculturais. Para Darcy Ribeiro,[4] progressos e regressões são dois mecanismos de configuração histórica que representam o avanço ou retrocesso dos aspectos produtivos, sociais e culturais de uma determinada sociedade em seu percurso evolutivo relativo a outras sociedades e não a um fim específico, que é a nossa sociedade, como os evolucionistas pressupõem.
Num sentido mais amplo e comumente empregado, a civilização designa toda uma cultura de determinado povo e o acervo de seus característicos sociais, científicos, políticos, econômicos e artísticos próprios e distintos.
Terça-feira, 5 de Dezembro de 2017
Perplexo
As civilizações são formadas por camadas sucessivas de capital social que as gerações do presente legam às vindouras. Cada geração que nasce beneficia e é condicionada por esse capital que por seu torno irá renovar para as gerações que lhe sucederão. Cada um de nós usufrui do edifício social e deixa-lhe um pequeno tijolo para os nossos descendentes: este fluir da História é independente da nossa vontade individual e as excepções são os indivíduos de mau caracter ou mal formados que estragam em lugar construir ou os homens excepcionais que estão à frente do seu tempo.
Vem isto a propósito daquilo que eu recebi da sociedade e do legado que vou deixar. Conscientemente, contra a minha vontade, nunca imaginei que iria legar aos meus descendentes uma sociedade baseada na especulação desenfreda e no capital selvagem. A sociedade bafienta que eu recebi, forjada por Salazar, com a cumplicidade da Igreja Católica, não era flor que se cheirasse e eu acabei por tomar consciência da sua iniquidade .
Eu não mereço ser espoliado na minha pensão de reforma ( já lá iremos) e os trabalhadores não merecem ser explorados com salários de miséria, atirados para o desemprego, e os jovens empurrados para a emigração porque o país, governado por cliques políticas incompetentes e gananciosas e por caciques mesquinhos, os empurra para a emigração, para longe, quanto mais longe melhor. Eu não trabalhei para construir esta sociedade onde, poderes ocultos, do capital e da finança, mandam em países inteiros. Tenho uma pátria pequena mas quero-a independente.
Será pedir muito?
Terça-feira, 9 de Maio de 2017
CIVILIZAÇÃO E TREPADEIRAS
Conheci a Glória há dias no festival literário de Macau (Rota das Letras). Emigrou do México para a zona de Cantão onde trabalha como gestora e, volta e meia, visita Macau e Hong Kong para renovar a sua vida cultural.
Encontrar uma mexicana na China é um choque térmico, O fervor da latina é a negação da frieza polida da chinesa. Do recorte do corpo até aos gestos, passando pela simpatia, a mexicana está para a chinesa como o caos do jazz está para a geometria de Bach. Corno tinha visto o filme “Sicário” no avião, a nossa conversa não saiu da anarquia que é o quotidiano mexicano.
“Sicário” é duríssimo, retrata um país sem lei, um país onde as verdadeiras fronteiras administrativas são as fronteiras entre os diferentes cartéis, um país onde corpos decepados aparecem nas ruas com toda a naturalidade como se fossem meros pombos decepados pela roda do carro, O horror é o normal; o estado da natureza é um penedo que esmaga as sementes do Estado de direito.
Perguntei-lhe se o filme era um retrato preciso ou uma caricatura ianque. “E mesmo assim”, disparou. “Amanhã não sei se a minha mãe me vai ligar a dizer que a minha irmã foi roubada, raptada, violada”. Percebi de imediato porque é que ela vivia na China: apesar das tais diferenças “Sicário” alarga o estado da natureza até à América profunda, sombria, sulista, e dá a entender que já não existe Estado de direito nesta América que vota Trump em desespero.
No fundo, “Sicário” é a nemesis de “O Homem que Matou Liberty Vãlance”, o western terminal de John Ford que retrata o momento em que a ordem do advogado substituiu no oeste a anarquia do cowboy. “Sicário” reverte o processo, vira a roda da história, lança a ideia de que velha anarquia do cowboy está de volta e que a justiça só pode ser feita pela guerra, não pela lei. Exagerado? Talvez não.
Esta América aparece em livros autobiográficos como “Hilibilly Elegy”, séries como “True Detective” ou noutros filmes como “Heli or High Water”, É a América que sempre nos assustou, mas também é a América que nos deu o western e escritores corno O’Connor ou McCarthy. E a América que nos assusta, mas também é a América que tem o hábito de nos salvar (quem é que acham que morreu na Normandia?).
Neste momento, confesso, o lado negro desta América é mais forte do que o lado heróico ou literário. Aquele apego pelas trevas do estado da natureza, bem visível hoje em dia, recorda-nos que a civilização é a mansão que pode ser consumida pela trepadeira.
Curiosamente, as civilizações deixam de resistir à trepadeira quando as pessoas começam a pensar que a civilização é natural, tão natural como a trepadeira; o caos surge quando as pessoas começam a pensar que a ausência de doenças é natural e não uma acção médica e humana, quando começam a pensar que a paz é natural e não o fruto de uma força militar e de uma força legal que é precisar usar sem contemplações perante os inimigos externos e internos. Como me dizia a Glória, “vocês no Ocidente não sabem a sorte que têm e é por isso que estão a fazer merda”. Ouvir isto na boca de uma mexicana na China soa a presságio.
Henrique Raposo, semanário Expresso de ontem.
Terça-feira, 26 de Janeiro de 2016
A terra sem males

Quando da chegada dos espanhóis e portugueses na América, por volta de 1500, os Guarani já formavam um conjunto de povos com a mesma origem, falavam um mesmo idioma, haviam desenvolvido um modo de ser que mantinha viva a memória de antigas tradições e se projetavam para o futuro, praticando uma agricultura muito produtiva, a qual gerava amplos excedentes que motivavam grandes festas e a distribuição dos produtos, conforme determinava a economia de reciprocidade. Quando os europeus chegaram ao lugar que hoje é Assunção, no Paraguai, ficaram maravilhados com a "divina abundância" que encontraram.
Os Guarani vêm seu mundo como uma região de matas, campos e rios, como um território onde vivem segundo seu modo de ser e sua cultura milenar. Do território tradicional, historicamente ocupado pelos Guarani, que se estende por parte da Argentina, Paraguai, Bolívia e Brasil, os Guarani ocupam hoje apenas pequenas ilhas. Seu território, o solo que se pisa, é um tekoha, o lugar físico, o espaço geográfico onde os Guarani são o que são, onde se movem e onde existem. Esses povos guardam tradições de tempos muito antigos, que trazem na memória que vão atualizando em seu cotidiano, através de seus mitos e rituais.
Os povos Guarani são muito semelhantes nos aspectos fundamentais de sua cultura e organizações sociopolíticas, porém, diferentes no modo de falar a língua guarani, de praticar sua religião e aplicar as diversas tecnologias na relação com o meio ambiente. Tais diferenças, que podem ser consideradas pequenas do ponto de vista do observador, cumprem o papel de marcadores étnicos, distinguindo comunidades políticas exclusivas. Esses grupos reconhecem a origem e proximidade histórica, lingüística e cultural e, ao mesmo tempo, diferenciam-se entre si como forma de manter suas organizações sociopolíticas e econômicas.
Atualmente, os Guarani seguem vivendo onde sempre viveram, apesar de inumeráveis pressões, ameaças e mortes. Diversos grupos Guarani foram se estendendo por esta parte da América, mediante sucessivas migrações aliadas ao crescimento demográfico, que começaram há uns dois mil anos atrás e que continuam até a atualidade. No território brasileiro vivem os Mbya, Kaiowá e Guarani (ou Nhandeva). Os Guarani e Kaiowá estão em Mato Grosso do Sul.
Um dos maiores males que os Guarani têm que suportar é a invasão e destruição de sua terra, a ameaça contra seu modo de ser, a expulsão, a discriminação e o desprezo que vieram com a chegada dos "outros", dos colonos e dos fazendeiros e, mais recentemente, dos produtores de soja e de açúcar.
O cerco aos Guarani e Kaiowá em Mato Grosso do Sul:
No Brasil, a situação dos Guarani e Kaiowá sofreu profundas alterações logo após a Guerra do Paraguai (entre 1864-1870). Após este período inicia-se a ocupação sistemática do território guarani por diversas frentes de exploração econômica, no sul do então estado de Mato Grosso. Podemos afirmar que a partir dessa data a história dos Guarani e Kaiowá, nessa região, vem fortemente marcada pelos rumos dessa exploração econômica: inicialmente, da erva-mate, a seguir a implantação dos projetos agropecuários e de colonização, a soja e correspondente mecanização, na década de 1970, e, finalmente, a cana-de-açúcar , a partir da década de 1980.
Estar em meio a um campo sem árvores ou junto a extensas monoculturas de soja ou cana de açúcar é um grande mal. A mata, a água e outros elementos do ambiente são espaços ocupados por uma série de seres espirituais, com os quais os Guarani e Kaiowá necessitam interagir para reproduzir seu modo de vida. Esses povos não são nômades nem vivem somente da caça, da coleta e da pesca. São agricultores, e bons agricultores, que produziam abundância de comida.
Ao mesmo tempo em que viram suas terras de ocupação tradicional sendo transformadas e as matas derrubadas, os Guarani e Kaiowá têm sido incorporados sistematicamente como reserva de mão-de-obra fundamental nas diversas etapas dessa exploração regional.
P.S.
No livro "O ratro do jaguar" Murilo Carvalho descreve as perseguições movidas pelos colonos europeus, portugueses, espanhois e outros aos guaranis e a apropriação das suas terras.
Sábado, 10 de Outubro de 2015
Séculos
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O século XXI é o século sem memória, o século do efémero, do instantâneo, do virtual, da desinformação, sociedades atomizadas tudo é caos e vazio.
O século XX, o meu século português não é o século dos países Ocidentais, que foi o século o horrível e do sublime, do monstruoso e do maravilhoso, do pior e do melhor da humanidade; conquistas sociais e cientificas sem paralelo na história e desigualdades também sem paralelo; toda a miséria e toda a grandeza do homem.
Nasci em 35 quando Salazar consolidava a sua ditadora e vivi num pais claustrofóbico, monótono e retrogrado, isolado do resto do mundo. Só a partir de meados dos anos 60 com a formação tímida da classe média e com a influencia nos hábitos e comportamentos trazida por milhares e milhares de turistas, Portugal começou lentamente a abrir-se à Europa.
Apesar de tudo isto prefiro o século XX ao actual, não porque tenha gostado da ditadura mas porque agora a subjugação é feita de forma sub-reptícia, avassaladora e esmagadora.
Se pudesse escolher, gostava de ter vivido no século XVIII, o século das luzes, do iluminismo; luzes que só existiam nos salões da aristocracia esclarecida, dos burgueses – o povo vivia na servidão do campo e nas trevas do analfabetismo -, e nas gazetas de circulação restrita; a idade da razão, tudo conquistas que não mudaram a sociedade da sua época mas que foram únicas no mundo até hoje.
Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2014
Machu Picchu



Machu Picchu (em quíchua Machu Pikchu, "velha montanha"),1 também chamada "cidade perdida dos Incas",2 é uma cidade pré-colombiana bem conservada, localizada no topo de uma montanha, a 2400 metros de altitude, no vale do rio Urubamba, atual Peru. Foi construída no século XV, sob as ordens de Pachacuti. O local é, provavelmente, o símbolo mais típico do Império Inca, quer devido à sua original localização e características geológicas, quer devido à sua descoberta tardia em 1911. Apenas cerca de 30% da cidade é de construção original, o restante foi reconstruído. As áreas reconstruídas são facilmente reconhecidas, pelo encaixe entre as pedras. A construção original é formada por pedras maiores, e com encaixes com pouco espaço entre as rochas.
Consta de duas grandes áreas: a agrícola formada principalmente por terraços e recintos de armazenagem de alimentos; e a outraurbana, na qual se destaca a zona sagrada com templos, praças e mausoléus reais.
A disposição dos prédios, a excelência do trabalho e o grande número de terraços para agricultura são impressionantes, destacando a grande capacidade daquela sociedade. No meio das montanhas, os templos, casas e cemitérios estão distribuídos de maneira organizada, abrindo ruas e aproveitando o espaço com escadarias. Segundo a história inca, tudo planejado para a passagem dodeus sol.
O lugar foi elevado à categoria de Património mundial da UNESCO, tendo sido alvo de preocupações devido à interação com oturismo por ser um dos pontos históricos mais visitados do Peru.
Há diversas teorias sobre a função de Machu Picchu, e a mais aceita afirma que foi um assentamento construído com o objetivo de supervisionar a economia das regiões conquistadas e com o propósito secreto de refugiar o soberano Inca e seu séquito mais próximo, no caso de ataque.
Pela obra humana e pela localização geográfica, Machu Picchu é considerada Patrimônio Mundial pela UNESCO.
Enquanto no inicio da Renascença as cidades, em alguns paíse da Europa, cresciam caóticamente, com grande promiscuidade e falta de hiegiene, os incas construiram, a 2.400 metros de altitude, uma cidade organizada com urbanismo avançado.
Com a colonização espanhla foi aniquilada a sua civilização (poderiam superar o Ocidente ?) e dizimada grande parte da sua população: mundos que não chegaram a florescer.
Falta saber o que acontecia no outro lado do mundo, na China. Continua.
Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014
Iluminismo e actualidade

O historiador Eric Hobsbawm apelidou o século XX de “A era dos extremos”.
Mas também podemos chamar ao século XVII o século dos extremos pelo choque entre uma nova mentalidade que desponta e a sociedade e as ideias do antigo regime. O iluminismo (ou iluminismos) é herdeiro da revolução cientifica do século XVI.
As novas descobertas da ciência, a teoria da gravitação universal de Isaac Newton e o espírito de relativismo cultural fomentado pela exploração do mundo ainda não conhecido foram também importantes para a eclosão do Iluminismo.
A «Crise da consciência europeia», que se coloca entre o fim do séc. XVII e o início do séc. XVIII, um período durante o qual surgiu uma visão moderna da humanidade, da natureza, da política, destronando o princípio de autoridade, para assentar as bases de um pensamento livre de todas as condicionantes externas à razão, e por isso mesmo prelúdio do Iluminismo.
Anunciado já no início do séc. XVIII, o Iluminismo alcançou o seu apogeu em França, entre os anos quarenta e setenta, período em que os seus resultados foram de tal forma abundantes e originais que chegaram a condicionar o inteiro quadro intelectual europeu. As obras de Montesquieu, Diderot, Voltaire, Rousseau, Condillac, Buffon, d'Hol-bach denotam as múltiplas inspirações teóricas que tornam tão viva e complexa a época das Luzes.
A monumental empresa da Encychpédie levada a cabo por Diderot e DAlembert evidencia, na sua difusão europeia e nas suas diferentes edições, a força de atracção expressa na cultura das Luzes e indica, ao mesmo tempo, o quanto os Iluministas souberam propor uma orientação prática à batalha em defesa da razão. Paralelamente, podemos também encontrar a personalidade de Rousseau, cujas originalíssimas reflexões conduziram as contradições do Iluminismo a um ponto avançado: a sua obra mais conhecida, o Contrato Social, deu origem à linha de pensamento democrático e às teorias da soberania popular.
Tal como o homem, também a natureza constituiu um núcleo de interesse das Luzes que, retomando os cânones empíricos e experimentais da «revolução científica» do séc. XVII, aprofundaram e ampliaram a compreensão do mundo natural. A ciência do séc. XVIII não é compreensível se, juntamente com Lineu, Lavoisier, Priestley, Lagrange e Franklin não se tiver em consideração também o papel das academias científicas de Paris, Londres e Berlim, e de tantas outras academias científicas menores espalhadas por todas as capitais, que formaram uma rede capilar de ligações através das quais circularam não só as comunicações como também uma generalizada confiança na centralidade da ciência e da técnica e na sua utilidade social. A revisão conduzida pelos iluministas na abordagem da natureza encontrou um processo paralelo na transformação a que se submeteu a historiografia, que produziu grandes obras históricas, como as de Voltaire, Gibbon, Giannone, Muratori, Hume, com as quais foi renovada a metodologia de investigação.
O Iluminismo exerceu vasta influência sobre a vida política e intelectual da maior parte dos países ocidentais. A época do Iluminismo foi marcada por transformações políticas tais como a criação e consolidação de estados-nação, a expansão de direitos civis, e a redução da influência de instituições hierárquicas como a nobreza e a igreja.
O Iluminismo forneceu boa parte do fermento intelectual de eventos políticos que se revelariam de extrema importância para a constituição do mundo moderno, tais como a
Revolução Francesa, a Constituição polaca de 1791, a Revolução Dezembrista na Rússia em 1825, os movimento de independência na Grécia e nos Balcãs e, naturalmente, os diversos movimentos de emancipação nacional ocorridos no continente americano a partir de 1776.
Muitos autores associam ao ideário iluminista o surgimento das principais correntes de pensamento que caracterizariam o século XIX, a saber, liberalismo, socialismo, e social-democracia.
Salões de aristicratas esclarecidos, clubes, cafés, academias e maçonaria eram os locais onde as elites burguesas discutiam os novos valores do Iluminismo, cujas ideias eram difundidas pela imprensa para um número limitado de leitores.
As reformas preconizadas pelos iluministas não podiam aplicar-se a uma sociedade rural de camponeses analfabetos
O movimento do iluminismo é um marco histórico importante na História da Humanidade, é uma conquista do Civilização Ocidental e até hoje não foi ultrapassado por qualquer outra Civilização. As civilizações chinesa, indiana, japonesa e outras, dos árabes nem vale a pena falar, até hoje não concederam valores que se aproximem do Iluminismo.
Nos dias de hoje, dominados pela crise de valores e pela manipulação das consciências sem precedentes na História é importante relembrar os valores e as ideias do iluminismo.
Sábado, 28 de Junho de 2014
A civilização fracaçou
28/6/2014,
A democracia e a ciência conjugaram-se para tornar a I Guerra Mundial no que ela foi: um horror incontrolável, que durou até ao colapso total de um dos combatentes e teve os efeitos que todos temia.
Há cem anos, um jovem deu dois tiros num casal de visita a Sarajevo. E um mês depois começava a I Guerra Mundial, no fim da qual, segundo nos têm ensinado, tinha acabado um mundo e começado outro. A relação entre os dois tiros e uma ruptura histórica tão grande atormenta-nos desde então. Dizer que as vítimas eram o herdeiro do império austro-húngaro e a sua mulher, e que o assassino era um dos militantes dos nacionalismos balcânicos, não chega. Estão as civilizações penduradas de tais acasos? Não será preferível encarar o atentado de 28 de Junho de 1914 como o simples pretexto para conflitos inevitáveis e agressões planeadas?
Os contemporâneos da I Guerra Mundial preferiram discutir culpas – da conspiração alemã à negligência inglesa. Nós optamos por evocar a primeira grande matança da época contemporânea – quase 9 milhões de soldados mortos — ou, mais sugestivamente, como fez o Wall Street Journal (http://online.wsj.com/ww1/
), desfiamos tudo o que devemos à I Guerra Mundial – e que parece ser de facto quase tudo, desde o fascismo à cirurgia plástica, passando pela projecção mundial dos EUA e pelas fronteiras (agora em colapso) do Médio Oriente.
Com a “Grande Guerra”, acabou o mundo a que hoje só chegamos lendo Proust ou vendo Downton Abbey. Ninguém deu forma tão fantástica à sensação de fim como Karl Kraus, com o seu drama Os Últimos Dias da Humanidade (de que há uma tradução parcial em português, da Antígona), onde encenou as conversas inspiradas pela guerra nas ruas, nas redacções dos jornais, nos quartéis, nos salões. A Kraus, tudo parece estúpido e fútil, a começar pela ideia de que a guerra podia ser uma forma de transcendência. A sensibilidade de Kraus é a nossa. E está aí, mais do que nos bigodes e espartilhos, a grande diferença que nos separa dessa época.
Em 1914, as grandes potências do mundo eram europeias e ainda tratavam a guerra como um meio normal de decidirem questões. Desde meados do século XIX, tinha sido assim que a expansão russa no Mar Negro fora contida e que a Itália e a Alemanha haviam sido unificadas. Por isso, há cem anos, os governos europeus dispuseram-se a definir mais uma vez os seus equilíbrios de poder através das armas. A Alemanha convenceu-se de que nada tinha a perder em tentar a sua sorte contra a Rússia. A Áustria julgou que tudo tinha a perder se não confrontasse a Sérvia. Uns anos antes, o autor inglês Norman Angell tentara demonstrar que as economias europeias estavam demasiado interligadas para permitir uma guerra. Mas todos os planos militares supunham uma guerra rápida. O estado-maior alemão esperava aniquilar a França e a Rússia em poucos meses.
Acontece que os planos falharam. Em 1914, os alemães não conseguiram derrotar os franceses. Em 1915, franceses e ingleses não conseguiram derrotar os alemães. Os chefes militares confiavam nas ofensivas, mas as defesas provaram sempre ser mais fortes. O impasse, porém, não pôs termo à guerra. E é essa a grande questão.
O mistério da I Guerra Mundial não é o seu começo. Isso é relativamente fácil de explicar. O grande mistério da I Guerra Mundial é o facto de não ter acabado quando, em menos de um ano, ficou demonstrado que nenhum dos combatentes estava em condições de ganhar. As guerras anteriores tinham sido rápidas e contidas: a guerra entre a França e a Áustria em 1859, entre a Prússia e a Áustria em 1866, ou entre a Prússia e a França em 1870, não passaram de uma ou duas grandes batalhas e duraram uns meses. Tinham sido “guerras de gabinete”, controladas, com objectivos restritos, e negociações à vista. Porque é que a guerra de 1914 adquiriu a intensidade e a intransigência de uma espécie de guerra civil europeia, como a guerra civil americana de 1861-1865, excluindo os compromissos que, em geral, haviam limitado as guerras europeias do passado?
É o grande paradoxo desta história: uma guerra iniciada como outro meio de fazer política, segundo a concepção de Clausewitz, tornou-se um confronto apocalíptico, aprisionando todos os combatentes numa imensa máquina de triturar. E é aqui que a ideia da guerra como origem da nossa modernidade, como se antes dela estivesse um mundo parado e tranquilo, subitamente destruído por uma imprevidência, não ajuda a perceber o que se passou. A Europa, em 1914, passava por transformações económicas, sociais e políticas sem paralelo. Nunca o comércio internacional tinha sido tão intenso (e nunca mais o seria, até ao fim do século XX). Cada vez mais países desenvolviam bases industriais. Os Estados democratizavam-se, através do alargamento dos eleitorados e da parlamentarização dos regimes.
Ao mesmo tempo que arriscaram a guerra, as elites políticas das potências europeias convenceram-se de que, no novo contexto histórico, uma derrota não significaria apenas uma perda territorial ou uma indemnização de guerra, como no passado, mas a queda do regime ou o desaparecimento do próprio Estado. Para ganhar, as elites europeias apostaram nas próprias forças que pareciam explicar a transformação do mundo no princípio do século XX: por um lado, a ciência e a tecnologia; por outro, a democratização, no sentido da mobilização e enquadramento político do que então se começava a chamar as “massas”.
A fim de movimentar as vontades e os recursos das nações, todos os governos propagandearam a guerra como um combate final contra bárbaros a quem não era possível fazer quaisquer concessões (na imprensa inglesa, os alemães passaram a ser os “hunos”). A vitória seria a salvação definitiva da humanidade, a derrota seria o fim de toda a civilização. E quando esbarraram num impasse, acreditaram que as maravilhas técnicas da revolução industrial acabariam por ser decisivas: com a artilharia, o gaz, os tanques, os aviões, os submarinos, era uma questão de perseverar, de tentar novamente, de nunca desistir.
A democracia e a ciência conjugaram-se assim para tornar a I Guerra Mundial no que ela foi: um horror incontrolável, que durou até ao colapso total de um dos combatentes e teve os efeitos que todos temiam – o desaparecimento de Estados, como o império austro-húngaro ou o império otomano, e a polarização e brutalização da cultura europeia. Mas não foi a guerra que mudou o mundo: foi a própria guerra que mudou, porque o mundo estava a mudar.
Terça-feira, 27 de Maio de 2014
Nunca tinha visto ao vivo

Há dias subia a Morais Soares, quando passou por mim uma mulher (?) com uma criança pela mão que mal saía da roupa. Vestia uma burca que a tapava, da cabeça até aos sapatos, e apenas uma pequena fenda horizontal deixava ver os olhos.
Senti uma sensação estranha e alguma surpresa: não parecia um ser humano, apenas o movimento dos sapatos fazia recordar a imagem que temos de uma pessoa.
Como é possível, no século XXI, tamanha sujeição mesmo fora das fronteiras do seu país? Alguém consegue explicar?
Quinta-feira, 13 de Março de 2014
Ilha de Pascoa
HISTÓRIA: Ilha de Páscoa - Um exemplo prático dos riscos de dispensar uma Visão de futuro!
O nosso fascínio pela civilização, que habitou a Ilha de Páscoa e aí construiu os estranhos moais, não nos deve impedir de colhermos as lições para interpretarmos os desafios que, nós próprios, enquanto portugueses do século XXI, estamos a enfrentar.
O documentário da National Geographic que, em 2011, cuidou de abordar o mundo subterrâneo da Ilha, confirma o que já se sabia há algum tempo: colonizada por povos provenientes da Polinésia, a Ilha assentava em três vulcões extintos, que haviam propiciado um verdadeiro paraíso natural com palmeiras gigantes a sobressaírem de luxuriantes florestas, com aves aos milhões e água com fartura.
Em poucas décadas os poucos habitantes iniciais multiplicaram-se até atingirem os vinte mil habitantes divididos em diversas tribos, que rivalizavam entre si quanto aos moais mais impressionantes com que, igualmente, contavam homenagear os espíritos dos seus antepassados.
Só que, para além dos ratos de que se tinham feito, involuntariamente acompanhar, e que comiam as sementes das potenciais árvores, que deveriam manter a riqueza florestal, os ilhéus dizimaram todos os troncos disponíveis para movimentarem as toneladas de pedras esculpidas desde a pedreira até aos locais da sua definitiva colocação.
Quando, em 1722, os holandeses aportaram ali pela primeira vez, encontraram uma população reduzida e esfomeada, sem recursos agrícolas e sem forma de construir os barcos com que poderia ter-se abastecido de peixe nas águas mais profundas em torno da ilha.
Daí que não estivessem esquecidas algumas décadas tenebrosas em que o caos reinara e se chegara a praticar o canibalismo. Tudo evidências recolhidas nas diversas expedições arqueológicas, que vêm esclarecendo as circunstâncias de um verdadeiro apocalipse localizado.
Mal sabiam os infelizes sobreviventes da decadência inexorável da sua civilização, que o pior ainda não sucedera: quer pelas armas de fogo, quer pela escravatura a que foram sujeitos na América Latina, quer ainda pelas doenças para que não estavam protegidos (sífilis, varíola), deles não restavam mais do que uma centena de sobreviventes em meados do século XX.
Agora que são grandes as certezas sobre as circunstâncias desse desastre civilizacional, é fácil concluir que ele se deveu à incapacidade em pensar distanciadamente no futuro, planeando com cautelas redobradas a forma como se deveriam utilizar os recursos disponíveis. Faltou uma liderança unificadora de todos os habitantes da ilha - que preferiram rivalizar em diversas etnias! - e a mobilização para um desenvolvimento sustentável. O papel da religião comprovou-se ser extremamente nefasto ao requerer esforços humanos e naturais, que superavam em muito as capacidades da ilha.
Faltou, pois, a Visão de futuro, de que estamos tão carecidos a nível de governantes. Se eles não promovem a construção de moais, não deixam de consumir recursos exagerados com os deuses do seu deslumbramento: os credores, a troika, as agências de rating e os mercados, para quem se consomem recursos de curto prazo. Recursos que tanta falta nos farão daqui a pouco, quando novas lideranças políticas promoverão a redenção destes dois anos e meio de entrega a interesses estrangeiros das joias da coroa ainda remanescentes de outras anteriores rendições ao presente imediato.
Domingo, 2 de Fevereiro de 2014
Mutatis mutantis

E no tempo repetidos
Somos seres andantes
Pela realidade envolvidos
Somos às vezes pensantes
Julgamo-nos evoluídos
E somos apenas mutantes
Simples animais distraídos
Revelamo-nos como errantes
Repetimos atrocidades
Em nome duma evolução
Que pensamos promover
Crescem as monstruosidades
Às quais não dizemos não
E assim escolhemos viver.
Do bloguepoetazarolho)
Poeta Zarolho tem razão, somos mutantes mas a nossa segunda natureza (a civilização) está a atraiçoar-nos. Munda incessantemente a uma velocidade que não é compativel com a nossa natureza (animal).
Há, apenas, 200 anos viajamos de cavalo e deligência em estradas de terra batida e esburacadas; há noite era a luz da Lua, das estrelas e de candeiros de gorduras várias. Sair de uma cidade ou vila era um empreendimento arriscado. Estamos melhor? Não sei, nem sequer sei como será na próxima semana.
Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2013
Depois do Natal

Na guerra (carnificina) de 1.914-1.918 , num ano que não recordo, num grupo de soldados alemães e outro grupo de saldados franceses, saíram das respectivas trincheiras para celebrar o Natal e confraternizar uns com os outros.
Foram todos presos, considerados traidores à Pátria e fuzilados sumariamente: a mensagem natalícia poderia ser celebrada nas cidades, vilas e aldeias mas não podia entrar nas trincheiras.
Depois do Natal o que acontece? Nada, ou mais exactamente, continua tudo na mesma: os rancores e ódios continuam, os mercados e a especulação continuam como dantes, os pobres continuam pobres, as guerras não sessam, a vida continua a sua «normalidade».
Almas caridosas e bem intencionadas sentem-se tranquilas porque num dia do ano representaram o papel da bondade e da fraternidade. Inventada há cerca de 1.600 anos, a celebração da mensagem de Jesus não alterou os sentimentos e os comportamentos dos humanos: a mensagem de Cristo é contrária à natureza humana, continuamos a ser como eramos, contraditórios com o Bem e Mal dentro de nós. Amém
Domingo, 10 de Novembro de 2013
Mudámos ?

Nas igrejas de Roma no renascimento cunhava-se moeda, praticavam-se homicídios, violavam-se mulheres e outras frescuras... Homens e mulheres tinham as emoções à flor da pele.
Não é preciso recuar tanto no tempo: um português do século XIX não era flor que se cheirasse: grosseiro, violento e analfabeto. Os brandos costumes não passam de uma ficção.
Isto não significa que não exista um fundo comum, intemporal, de necessidades, motivações e aspiraçãos, de vicios, maldade, etc..
Quinta-feira, 6 de Junho de 2013
Brandos costumes

“Eu, a puta de Rembrandt”, de Sylvie Matton, Editora Lyon, é um livro que recomendo. É um romance histórico sobre Rembrandt e a sua época, com grade detalhe de costumes na Holanda do século XVII, já liberta do domínio de Espanha.
Que na Holanda que viria, ou já era, a pátria da toleramcia, se praticasse atrocidades como a que é relatada neste texto causa perplexidade. Por cá a Inquisição não era mais branda e por outros países da Europa civilizada, em pleno século das Luzes, não deveria ser muito diferente: suplico em praça pública e enforcamento do cadáver.
Hoje já estaremos libertos desta desta, barbárie?
Aqui vai um excerto do livro e no blogue Livro velho está uma biografia de Rembrant:
“Manhãs tristes, digo para mim que não é vida para uma criadinha deitar-se na cama do amo. Devo ir-me embora, devia, digo para comigo, mas para onde ir, para Bradevoort jamais, embora sinta, por vezes, a falta da minha mãe, a sua doçura e as histórias que ela gosta de contar.
Acho que não suportaria o cheiro das botas dos soldados. Agradeço e rezo; que nunca mais um olhar de homem sem bondade me trespasse. Como se tivesse acabado de nascer, aos 25 anos, aqui em Amesterdão, nos braços, nos odores, na bondade de Rembrandt van Rijn. No quarto dele, uma lareira de turfa arde durante metade da noite e o pesado tecido verde em volta da cama de dossel conserva o calor. Espreguiço--me, não quero pensar mais, feliz nos seus braços esqueço, nunca tenho frio.
Então, para me assustar, penso nas histórias de criadas expulsas por estarem grávidas e presas em Spinhuis. Aquela de Janeke Welhoeck, criada em casa do Sr. Bickingh, na boa cidade de Edam. Edam é conhecida pela sua gentileza, foi pela gentileza que a sereia que lá foi capturada se deixou prender.
Enquanto o seu ventre inchava, Janeke não disse o nome do pai. Quando teve o re-cém-nascido sobre o seu seio, murmurou o nome do filho mais velho do Sr. Bicking. Este mandou-a imediatamente prender, com a criança que chora para comer. Ela tem de confessar a mentira e sobretudo não exigir o casamento. Diz a história que ela não exigia nada. Invoca-Me no dia do teu sofrimento, salvar-te-ei e tu Me glorificarás.
Na prisão, ela enforca-se perante o seu bebé que acabava de arrotar. Como se a sua honra não tivesse sido lavada, para se vingar ainda da pobre rapariga, cujo filho esfomeado chorava por ser órfão, o Sr. Bicking exige que o cadáver da suicida seja supliciado e enforcado na praça. A morta enforcada.
Toda a simpática cidade de Edam assistiu. A história não diz se o filho do Sr. Bicking lá estava, nem se o bebé morreu de fome ou de tanto chorar.”