Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2018
De onde venho?

Dos confins do Tempo primordial, sem memória. O hidrogénio é o culpado de tudo, esta em todos os cantos do Universo e foi a partir dele que a implosão  das primeiras estrelas gerou as estrelas de segunda geração que «fabricaram» todos os átomos que existem.

Viajei pelo espaço sideral de distâncias inimagináveis – calor e frio extremos,   vi galáxias de todas as formas: viajei sem destino marcado até parar numa galáxia qualquer, numa estrela qualquer, num qualquer planeta.

Não me lembro, mas foi no planeta Terra que o milagre da vida aconteceu como poderá ter acontecidos noutros planetas desta ou de outras galáxias. Saí de um Oceano e comecei a rastejar em terra. Milhões e milhões de anos para que tudo isto acontecesse e era apenas um princípio. Por mais de uma vez estive em risco de perecer e esta história teria terminado, mas a vida tem tanto de vulnerável quanto de persistente.

Surgiram milhares e milhares de espécies que já pereceram, dinossauros incluídos. Uma deriva de placas tectónicas no Rift africano tornou viável a vida de primatas até que um dia  surgi eu. Se não tivesse acontecido mais nada, a razia do Pérmico, era suficiente para nos ensinar – se quisermos aprender – que a marcha cósmica da vida não tem qualquer sentido.

Aceitar que a vida não tem sentido é um choque, pode até ser uma angústia e para os crentes de qualquer religião é um absurdo, mas de facto não tem sentido.  Nós é que temos de acrescentar-lhe um, escolher um desígnio, para vivermos com dignidade, sem esquecer que a nossa natureza acrescenta valores éticos ao que pensamos, ao que fazemos e ao que esperamos que os outros façam.

Não conseguimos viver sem valores éticos a menos que nos transformemos em oportunistas inveterados que atropelam tudo e todos.

O Aleijadinho esculpia as suas estátuas com o martelo e o escopo amarrados às mãos e tinha de captar o essencial de cada apóstolo. Sem a arte dele tenho a mesma obsessão quando escrevo: só o essencial, só o essencial.

Para escrever este post  tive que montar um cavalo brioso, cem vezes mais veloz do que a velocidade da luz, tive que captar apenas traços muito gerais de uma história com cerca de 15 mil milhões de anos, antiguidade que somos incapazes de compreender. Só a viagem por uma pequena galáxia dava para escrever vários livros.

Da recentíssima vida na Terra – escassos 4,5 mil milhões de anos – sabemos que a vida poderia ter meia dúzia ou mais de percursos diferentes com formas (seres) também inimagináveis.

A última grande extinção (foram seis) no Pérmico, ocorrida há cerca de 250 a 300 milhões de anos deu-nos as actuais formas de vida. Os seres que sobreviveram e os novos que surgiram não tinham  qualquer consciência de  que eram os protagonista de uma nova era, apenas desenvolviam troques para sobreviver. É deles,  dos dinossauros que se extinguiram e de um pequeno mamífero que sobreviveu, que começa a ser escrita a nossa história, uma odisseia que dá para escrever uma biblioteca inteira.

Daquele acidente tectónico no Vale do Rift africano, uma parte da floresta desapareceu e nasceu a savana. Um macaco curioso, desceu das árvores e começou a perscrutar a savana e os seus predadores: pouco depois entramos em cena até ao Homo Erectus. Seguiram-se uma série de acontecimentos prodigiosos – a invenção do fogo, da linguagem, do amor - mas é uma história demasiado complexa para que eu a possa esboçar.

Uma vez de pé, comecei a usar as mãos e a cabeça, o homem faz-se  si próprio, disse Gordon Chile: percebi que para sobreviver tinha que viver em grupo. Quando surgiu a minha consciência não sei (parece que ninguém sabe), também não sei quando surgiu a linguagem, nem sequer sei quando percebi que  a reprodução poderia ser feita com amor: amei até hoje e  é cada vez mais necessário amar.

Tudo isto foi muito difícil, perigos imensos, frios glaciares e agora poderia ser apenas eu a perecer: foi um milagre chegar até hoje.

Os meus tetravós construíram pirâmides e catedrais, inventaram a música e a poesia, a literatura e a filosofia, a ciência e quando estão ensandecidos destroem tudo.

Tenho sido muito insensato, além de genocídios e guerras sem fim e sem sentido, estrago a natureza que me deu vida. Sozinho nada posso fazer e colectivamente, em sociedades, não sabemos governar-nos.

Dentro de milhões de anos, o planeta Terra irá ficar estéril como a Lua, sem qualquer forma de vida, e quando lá chegarmos os humanos serão os primeiros a ficar petrificados.

Perplexo, vejo chegar a minha  hora de partir: quando terminar a minha ínfima caminhada, que não deixará qualquer peugada,  devolvo ao espaço os átomos que as estrelas me emprestaram para fazerem novas combinações. Gostava de poder escolher uma estrela para repousar mas a natureza não perde tempo com os nossos desejo, anseios,  fantasias e angustias, segue o seu caminho sem nunca olhar para trás.

Não é poético, mas é assim.

 


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publicado por pimentaeouro às 17:03
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Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2018
Passado longinquo
 
 

 

Sou como o narrador do conto "O fogo  e as cinzas" de Manuel da Fonseca, um velho falhado. Como ele rou o osso da memória, das memórias que me assediam mesmo que eu não queira. Regresso aos tempos longínquos da minha mocidade vivida em Torres Novas. Os dias corriam suaves, sem preocupações, com esperanças que se desfizeram. Sem que eu soubesse porque, a vida queria castigar-me.

Eu era um estranho, recem-chegado e duas mulheres escolheram-me: ainda hoje não sei porque, o que acharam em mim, com uma figura meio triste?

As escolhas do coração não passam pelo filtro da razão. Amamos e é quanto basta, na mocidade não existem cálculos de patrimónios, de bens herdados ou a herdar. Isso, só acontece mais tarde e não acontece sempre, o século XIX já lá vai.

  O meu primeiro amor foi com a Fernanda e a sua recordação ficou gravada nos recantos sinuosos da minha memória. Fernanda, recordo com saudade a tua ternura, a alegria dos teus olhos, os beijos ternos que trocamos, quase roubados.

.Namoro curto, igual a todos os namoros daquela época que terminou com uma imposição tua; inexperiente, não soube contornar o problema. Tinha corpo de homem mas a cabeça andava na Lua. Seguidamente namorei com a Julieta Fradinho, natural de Silves, filha de um funcionário do Tribunal, que terminou brutalmente com a proibição categórica do pai, à boa maneira do século XIX.

Julieta era o oposto da Fernanda, reservada, olhar triste sem os atributos de beleza da Fernanda; tinha mais maturidade do que eu e o amor já tinha criado raízes no seu coração.

Visto de fora, eu era um rebenta corações, na realidade, eu é que fiquei rebentado: para um jovem de vinte e poucos anos que se inicia   nos caminhos sinuosos do amor, dois insucessos seguidos deixam marcas fundas. Apesar disto, por estranho que pareça, tenho uma recordação muito grata – nos sentimentos não existe racionalidade - da Fernanda e da Julieta.

Não comentei estes insucessos com ninguém, lambi as feridas em solidão. Talvez por ter feito este recalcamento, agora tenho uma necessidade irreprimível de falar e escrever sobre eles.

 


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publicado por pimentaeouro às 22:04
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Terça-feira, 16 de Janeiro de 2018
Amigo António

Amigo António,

Não receberás esta carta, mas continuo a escreve-la como se fosse enviá-la pelo correio. Não respondes-te à minha primeira carta e, assim, não terás que responder a esta: afinal, os amigos também se esquecem.

A minha sogra faleceu perto dos noventa anos. Passava os dias cantarolando cantigas de quando fora jovem e histórias de amigas, a maior parte delas, já falecidas.

A natureza, sabiamente, retira aos velhos a memória de curta duração, não se lembram do que aconteceu na semana anterior, e devolve-lhes a memória do passado distante, a chamada memória de longa duração: mais ano menos ano, acontece e todos. Parece-me que sou precoce, já vivo mergulhado na memória de longo prazo, principalmente a memória da minha juventude ( a fase mais importante da existência ) vivida aí, em Torres Novas.

Esta dádiva da natureza tem um preço, a memória antiga é traiçoeira , omite, distorce factos e acontecimentos, fantasia o passado, temos que ser prudentes com ela: até os que escrevem livros de memórias não escapam a esta realidade. A memória é imperfeita e complexa como nós.

Recordo com muita saudade os amigos que ai conheci (convivi com dois em Lisboa, o Francisco Canais Rocha e o António Graça, falecido ainda novo) e, paradoxalmente dois insucessos amorosos, com a tua irmã e seguidamente com a Julieta Fradinho, natural de Silves, filha de um funcionário do Tribunal (com cara de poucos amigos, nunca o vi com uma companhia), que terminou brutalmente com a proibição categórica do pai, à boa maneira do século XIX.

 

Sempre ouvi dizer que o primeiro amor nunca se esquece e julgava que eram histórias de livros, mas é verdade, acontece mesmo. O meu primeiro amor foi com a tua irmã e a sua recordação ficou gravada nos recantos sinuosos da  minha memória.

Namoro curto, igual a todos os namoros daquela época e terminou com uma imposição que, inexperiente, não soube contornar.

Visto de fora, eu era um rebenta corações, na realidade, eu é que fiquei rebentado: para um jovem de vinte e poucos anos que se inicia   nos caminhos tortuosos do amor, dois insucessos seguidos deixam marcas fundas. Apesar disto, por estranho que pareça, tenho uma recordação muito grata – nos sentimentos não existe racionalidade - da Fernanda e da Julieta.

Não comentei estes insucessos com ninguém, lambi as feridas em solidão. Talvez por ter feito este recalcamento, agora tenho uma necessidade irreprimível de falar e escrever sobre eles.

Por obra do acaso, o grande fazedor e desfazedor de vidas, conheci na Net, um conterrâneo do Algarve, a viver em Sintra, e que conhece a Julieta. Deu-me o seu endereço e irei procura-la se saúde permitir.

Gostaria igualmente de voltar a ver a tua irmã mesmo que ela tenha uma memória desfavorável de mim: aos oitenta anos, doente, na idade do perdão, não tenho necessidade de enganar ninguém. Sei que ela está casada com o Arlindo e julgo que o conheço.

Há uns meses convidaram-me para um concurso de blogues. Tinha que apresentar uma resenha «biográfica» e saiu-me o texto que junto a esta carta. Dá uma síntese das minhas andanças.

Desejo a continuação das tuas melhoras e despeço-me com um abraço e cumprimentos para a tua esposa.

 

 


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publicado por pimentaeouro às 21:32
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Conversa com uma amiga

torres novas.jpg

 Escrevo como se estivessemos à mesa e um café a conversar e conto com a sua paciênvia para me escutar.

Tive uma infância trister – orfão de pais vivos, uma história complicada – e uma adolescência dificil; a mocidade vivía em Torres Novas e foi um tempo de alegrias e de solidão. Foi o tempo dos meus primeiros amores, ambos falhados, e tive a sorte de fazer parte de um grupo de jovem da minha idade, com duas excepções, que foram bons amigos. Ainda hoje recordo esse grupo com muita saudade, alguns desses amigos já faleceram, o Canais Rocha, o Fernando Canais, o meu homónimo Gonçalves, empregado do Simões da loja de fotografias e outros cujo nome não me ocorre.

Recordo Torres Novas com sentimentos contraditórios, a felicidade hefemera do amor da Fernanda e da Julieta e a tristeza da solidão que se seguiu àqueles amores; com frequencia a felicidade acontece no passado e não volta a repetir-se.

Apesar dos 82 anos são recordações que ainda não se apagaram num final de vida onde a memória de longo prazo se vai transformando numa nevoa , onde a vida vai  ficando despovoada.

Não faço  ideia se voltarei a Torres Novas, para reencontrar e abraçar alguns amigos que ainda restam e para tomarmos o adiado café mas este desejo também poderá ficará por concretizar.

 


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publicado por pimentaeouro às 19:29
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Segunda-feira, 27 de Novembro de 2017
Vivi assim... mais ou menos

Nascido, por acaso, em Vila Real, Algarve, com ascendência na nobreza berbere, a  minha avó era princesa e o meu avô um xeique famoso. Tenho com  terra de eleição Torres Novas, onde vivi a mocidade e gostava de ser enterrado.

A mocidade não foi uma época feliz, dois insucessos de amores  deixaram-me marcas para o resto da vida. Errante por terras, amigos e amores, perdi mais tempo a trabalhar do que devia e amei menos, erro que não posso emendar: os erros sobejaram . Fui feliz e infeliz. Trabalhei para que houvesse uma sociedade melhor mas essa utopia esfumou-se, hoje soa a ridículo. Ao quase nulo capital social que recebi à nascença, acrescentei modestamente qualquer coisa.

Toda a minha vida, desde os 14 anos à reforma, foi escriba de números e contas, antigamente chamava-se manga-de-alpaca, hoje chama-se contabilista, soa melhor.

Entristece-me os amigos que já morreram e           levaram parte da minha vida, foi morrendo um pouco com eles, em compensação sinto que foi um privilégio receber a amizade de alguns de eles (Caiano Pereira, Barros de Moura, Antónia Graça e outros).

Vivi às avessas, fazendo coisas fora do tempo e outras desajeitadamente. Na adolescência perdia as noites de volta de tabuleiro de xadrez em lugar de andar atrás das miúdas. Ainda hoje não percebo porquê.

Ao xadrez devo ter-me ensinado a refectir e, principalmente, raciocinar, um bem quase raro.

Agora, reformado e velho, deu-me para escrever. Durante cinco anos tive os blogues Artesão Ocioso e Livro de Horas Tristes, agora, em saldo, entretenho-me com Pimenta e Ouro e Livro Velho, estou mais velho e estou doente: cinzas de uma lareira a extinguir-se.

E é tudo, ou seja, quase nada.


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publicado por pimentaeouro às 06:41
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Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
Nomada

 

nomadas.jpg

 

 

Milhares de anos de vida nómada devem ter deixado marcas fundas nos nossos genes: a sedentarização aconteceu ontem.

Fui um seminómada, cá dentro, sem dama à minha espera, Santo Graal para demandar e escudeiro para me ajudar. Parecido com D. Quixote apenas na altura e na magreza.

Frugal como convém a qualquer cavaleiro, não realizei proezas, nem criei raízes, apenas ficaram bons amigos nos vários locais por onde passei.

Cada encruzilhada levava-me a novos caminhos sem desígnios, apenas estadias transitórias, uma vida errante e os  erros subejaram.

As peregrinações ensinaram-me a cultivar o silencia e a procurar o que está para das aparências.

Não parto amargo, nem azedo, foi assim que vivi, nada mais.

 

 


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publicado por pimentaeouro às 10:07
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Segunda-feira, 6 de Novembro de 2017
Castração dos afectos

 

A sociedade de hoje é muito mais complexa do que a sociedade de Salazar e essa complexidade reflete-se no comportamento das pessoas.

Nas relações mulher-homem ou homem-mulher, tanto faz, ainda há muita pedra para partir.

Vejo no meu neto comportamentos machistas que era suposto já não existirem e ainda por cima as raparigas que andam com ele acham natural.

A minha saudosa tia Maria do Carmo, cuja memória guardo com muita gratidão, aprendeu a ler, com cerca de 70 anos, depois de enviuvar: analfabeta filha de mãe também analfabeta.

Regressando a Salazar. Com a cumplicidade activa, neste campo, da Igreja Católica, conseguiu montar um controlo social dos sentimentos e das afectos: a PIDE para os políticos, a moral e os bons costumes obrigatórios na mulher.

Tinha de ir virgem para o casamento, obedecer servilmente ao chefe de família e ser a fada do lar. Para abrir conta no banco tinha que ter autorização do marido.

Aconteceu-me por duas vezes sofrer, na pele, a moral e os bons costume: com a Fernada de uma forma moderada, com a Julieta a proibição pura e simples de namorar com este pé rapado.

Na época eu tinha pouco mais de 20 anos mas as marcas duraram mais de 6 anos. Durante este período não existiu nenhuma mulher na minha vida, quase desesperei.

O resultado foi um casamento tardio com todos os ingredientes – e erros meus – para terminar mal.

Muita coisa mudou deste então, umas boas outras nem tanto.  A vida não é fácil, nunca foi.

Acontece que já estamos dentro de um buraco, não vemos o fundo nem vemos o futuro dos nossos descendentes.

Aqui a vida pregou-me mais uma partida, mas isso fica para outra altura.

 


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publicado por pimentaeouro às 15:51
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Quarta-feira, 25 de Outubro de 2017
Encruzilhada

encruzilhadas.jpg

 

Não tive mãe nem pai que me vissem crescer e me fizessem homem apesar de ambos estarem vivos.  Segui o fado de todos os órfãos, não pertencem a n inguém, tem um vazio na alma que nunca é preenchido.

 O acaso e algumas decisões tecerem a minha vida sem raízes. Peregrino por várias terras, sou filho de terra nenhuma.

Pertencer a uma terra, não é apenas o lugar, bonito ou não, são as pessoas,  a família, os amigos que fizemos ao longo dos anos, as boémias e as tristezas, o trabalho onde ganhamos o sustento, os amores passados e recentes, a rede de relações que fomos tecendo e nos prendem a esse lugar.

Em todos os lugares onde vivi tive bons amigos mas senti-me sempre de fora, estrangeiro.

Tive três encruzilhadas que poderiam ter-me dado histórias de vida diferentes da que vivi: o meu primeiro amor com a Fernanda; o amor proibido com a Julieta e a ida para Moçambique que não se concretizou.

Fernanda e Julieta eram diferentes em tudo, recordo a Fernanda como uma rapariga alegre, afectiva e bonita, a Julieta era reservada, sem beleza especial e de forte personalidade, estava à frente da sua época.

À distancia de cerca de sessenta anos continuo a pensar que a minha vida deveria ter acontecido com a Fernanda, possuía tudo o que eu precisava para ter uma vida estável, com alguma felicidade, porque não. A Fernanda podia serenar a minha intranquilidade e anemizar a minha solidão. Não tive essa vida.

Não posso esquece-las nem aos amigos que tive em Torres Novas. Fizeram parte da minha vida, na mocidade, que deveria ter sido a melhor época da minha vida mas não foi.

Agora tudo é passado e memória.

 


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publicado por pimentaeouro às 22:06
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Quinta-feira, 12 de Outubro de 2017
Infância

vila real.jpg

 Foi aqui que no inicio dos anos 40 do século passado brincava com outros maçaricos como eu. Uma infância triste para esquecer.


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publicado por pimentaeouro às 21:32
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Sábado, 12 de Agosto de 2017
Nunca saberei

Volvidos  cerca de 50 anos regressei a Torres Novas, terra onde vivi a mocidade. Foi lá que tive os meus dois primeiros amores, tardios.

A viagem foi de camionete, pela margem esquerda do Tejo, com paragem em todas as aldeias. Hopedei-me num hotel com vista para a praça 5 de Outubro e perguntei a um amigo daquela data onde residiam Fernanda e Julieta. Deu-me a morada da Fernanda e do Irmão António, da Julieta não havia rasto.

Fernanda e Julieta eram duas jovens completamente diferentes: Fernanda era meiga, expansiva e alegre. Alta e bonita, talvez uma das jovens mais bonitas de Torres Nova, Julieta era o oposto, reservada, baixa sem atractivos especiais.

Tímido, como sempre fui, comecei por procurar o irmão que se encontrava debilitado com dificuldade em andar. Quem me atendeu foi a mulher e combinamos que o António iria ter a um café perto de sua casa.

Passado cerca de meia hora como o António não aparecesse voltei a sua casa e para minha surpresa ninguém me atendeu. Não percebi a recusa em falar comigo nem que motivos poderia ter, sempre fomos bons amigos e nunca tivemos qualquer desavença.

Deduzi que uma visita à Fernanda não seria bem recedida. O meu desejo de voltar a ver a Fernanda ficou enterrado.


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publicado por pimentaeouro às 22:30
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Quarta-feira, 29 de Março de 2017
Perplexo

Vivi em dois séculos, o XX e o XXI e foi assistente meio passivo de transformações sociais e culturais de dois mundos.

Passei por uma sociedade conservadora, intolerante desfasada do mundo em permanente transformação. Depois veio a aurora libertadora plena de promessas mas efémera. Vivi a febre do PREC,  a sua extinção e o fim da Guerra Colonial, um marco histórico.

Portugal entrou em acelerada normalização rumo à democracia difícil e frágil, para a economia recuperar dos desvarios veio o primeiro pacote austero do FMI e dos credores, paralelamente sucederam-se governos provisórios até às primeiras eleições em democracia.

Mário Soares e o PS governaram com muitas dificuldades até conseguir a adesão à CEE e o acesso aos fundos comunitários. A normalização da sociedade prosseguia mas as dificuldades económicas prosseguiam também. Como remédio o PSD e o CDS impuseram austeridade além da Troika e como era de esperar perderam. António Costa navega entre escolhos e a economia continua doente.

Um historiador definiu o século XX do mundo Ocidental como e "Era dos Extremos", para o Bem e para o Mal, com efeito as transformações foram profundas e radicais; Portugal viveu à margem desse mundo, ainda hoje apenas temos uma estreita janela para o ver, continuamos com décadas de atraso sem qualquer hipótese de aproximação. 

A sociedade portuguesa  mudou e muito e nem sempre para melhor; as pessoas também mudaram e não sei definir o português de hoje.

Amei e fui amado, tive bons amigos, a maior parte já falecidos, de que guardo grata memória, a minha infeliz mãe morreu demente, o meu pai foi um canalha que abandonou a família e tive tios que me ajudaram. Tive a sorte de trabalhar naquilo que gostava (contabilidade), gosto que a coluna pagou, e fui meio autodidacta, vivi sem angustias existenciais e em jeito de balanço final gostava de deixar à sociedade um pouco mais do que recebi: uma existência banal num homem normal. 

Entrei relutante no século XXI e estou desencantado. A sociedade sem valores e caótica, do individualismo exacerbado, que começou a criar-se na década de 90 do século passado é contra natura.

No fim da vida, de uma vida que já vai muito longa estou desiludido e não é mal da idade é a sociedade que está doente.


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publicado por pimentaeouro às 20:39
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Domingo, 19 de Fevereiro de 2017
Auto retrato... colectivo

 sua foto do perfil, A imagem pode conter: 1 pessoa

 

 

(pintura do renascimento)

 

Um metro e setenta e quatro, setenta quilos, olhos castanhos, elegante e bonito (ia dizer que sou feio, não?) e todos os atributos apresentados nos anúncios de pedido de casamento.

Cheguei aos 81 anos sem saber como e sinceramente a «fachada» não exibe as mazelas interiores.

A velhice tem privilégios: acumulam-se as disfunções; as articulações emperram; os hábitos e rotinas alteram-se (diminuem); a vontade de tudo e de nada diminui; a memória esfuma-se; a autonomia diminui e o último degrau é a perda progressiva da consciência.  

Os progressos da medicina e da higiene fizeram recuar a morte – recuar apenas -, mas a sua vingança não se fez esperar: inventou um conjunto de estados intermédios de agonia lenta entre a vida e a morte, esbatendo os limites claros de antigamente.

Para complicar o cenário, a sociedade não está preparada,  para suportar o peso crescente do aumento da população idosa,

A imagem do avô ou avó sorridentes, saudáveis e com uma boa reforma constituem a excepção deste novo mundo que o progresso nos ofereceu.

 


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publicado por pimentaeouro às 21:58
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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2017
Procurar sinais

Procurar sinais

Eu sou a minha alma (cérebro) mais o corpo e a minha consciência reflete o mundo que me cerca e eu próprio; eu, frente a frente, comigo, indago-me.

Conheço os sinais, externos e internos, da decadência do corpo, as capacidades físicas que diminuem, novas limitações que surgem, um espetáculo desagradável.

Procuro indagar mais além e conhecer as limitações da minha consciência: a lucidez e a objectividade para me interpretar já começaram a diminuir?

Como saberei que a minha consciência começa a ter limitações, dela própria ou induzidas pelo corpo, dado que os dois são unos? Quais são os sinais de alerta? A consciência terá capacidade para os capar, mesmo quando começa a ficar limitada?

Com o avanço da idade começa a surgir a senilidade que, no limite, pode ir até à demência: a consciência adoece como o corpo e até pode sucumbir primeiro do que ele.

Só, entregue a mim próprio, tenho que ser eu a encontrar as respostas... se conseguir formular as perguntas. É complexo e é o último desafio.

 


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publicado por pimentaeouro às 12:24
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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017
Amor antigo

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Algumas mulheres perdem-se pelo amor e pagam caro, às vezes demasiado caro: há feridas interiores que a memória nunca deixa sarar. O preço que tu pagaste foi demasiado elevado e foi e teu próprio pai quem o impôs.

Naquela época (meados dos anos 50) era muito raro uma rapariga aceitar namoro sem a prévia autorização dos pais. Decidis-te sem essa autorização e, mais ainda, eu era praticamente desconhecido em Torres Novas: foi um forte impulso do teu coração (eu merecia essa audácia?).

Tivemos dois namoros, o primeiro foi mudo. Só os nossos olhos conversavam. Os meus olhos procuravam os teus, os teus olhos procuravam os meus e olhávamo-nos longamente. Era uma procura mútua com emoções ambiguas: o amor tacteava no desconhecido, o desejo de nos conhecermos, de nos encontrarmos. Era uma atracção mútua que nos dominava, sentimentos que despontavam como uma primavera.

Depois tivemos cerca de um mês de namoro, se é lhe posso chamar namoro. Viveste o encantamento de teres encontrado o homem que procuravas para amar, o pai dos teus filhos – a maternidade cantava melodias ao teu ouvido de mulher, melodias que só tu ouvias – um companheiro para a tua vida onde já existia a solidão da morte da tua mãe.

Eras uma mulher inteligente, avançada para a tua, a nossa época, e o teu horizonte não se confinava só ao casamento, à vida conservadora e parada de uma pequena cidade de província, conhecias horizontes mais abertos de outros meios.

A tua maior atenção era conheceres o homem – frágil – que tinhas escolhido. Irias conseguir viver com as minhas fragilidades?

Durante um breve mês viveste a esperança de ser feliz, espuma que o vento dissipou.

Existo na tua memória? Como? Com ternura ou como um pesadelo que não devia ter acontecido?

O que me importa é saber – nunca o saberei! - que foste mulher e mãe com outro homem e que foste feliz. Era isso que tu merecias.

Aquele efémero namoro ficou gravado na minha memória, bem como o prolongado sofrimento e frustração que passei.

Há distância de mais de cinquenta anos que interesse tem esta história? Tem para mim e, quem sabe, também terá ou teve para ti.

 

O amor antigo tem raízes fundas,

 feitas de sofrimento e de beleza.”


 e a recordação do teu  amor já é independente da minha vontade, é uma coisa que me domina e que não posso controlar, lembro-me te ti quando menos espero e com frequência não consigo evitar as lágrimas.

Parece-me quase infantil estar a escrever este post, mas a memória é mais forte do que eu e não consigo evitá-lo.

Afinal, o ridículo acontece a todos, talvez os poetas compreendam isto.

 

AMOR ANTIGO

O amor antigo vive de si mesmo
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

 

 


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publicado por pimentaeouro às 18:51
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Domingo, 29 de Janeiro de 2017
Filho do Sol

 

Sou meridional, provavelmente de ascendência árabe, afinal andaram por cá cerca de 5 séculos, não serei descendente de princesas e vizires mas de artesãos. Sou filho do Sol e das areias douradas das praias do Algarve.

Preciso que o Sol acaricie voluptuosamente o meu corpo e que as dunas embalem o meu sono, só assim consigo sonhar que não sou um velho decrépito e que algum resto de juventude ainda habita o meu corpo.

É nas areias do Algarve que desejo que façam a minha campa.

 


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publicado por pimentaeouro às 12:17
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Completamente! O suposto inteligente!!!
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