Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2018
Anos 60

os anos 60 era assim e ainda hoje existem exemplares deste.

  

A mulher a dias, que vive com o marido, cinco filhos, numa casa com três quartos e uma cozinha. Os filhos não podem brincar com os primos — o ma­rido não deixa, pois zangou-se com o cunha­do. E como eles, apesar de tudo, brincam, e como ele acaba sempre por vir a saber,

bate-lhes sem dó nem piedade. Neles e nela.

  • Vi-lhe as nódoas negras. Quando ca­sou tinha uma pulseira de oiro. O marido (é chauffeur de táxi), um dia destes, foi buscar a pulseira ao prego, depois não lha devolveu. E trocou-a por um relógio, mas para ele.

Ameaça deixá-la, se ela não encontrar outra casa; não quer viver mais com o cunhado. Mas não lhe dá dinheiro, ela que o arranje. E não é só o problema do di­nheiro. Como poderiam ir sozinhos para um quarto sem ninguém a quem deixar os filhos? Há outra coisa: já fez dezoito des­manchos, agora vai fazer outro. Perguntei--lhe: «Porque não se protege, mulher?» Ele opõe-se. E nem lhe paga os desman­chos, a trezentos escudos cada. E a sangue--frio, bem entendido. «Deixa-os vir, deixa-os vir...», costuma ele dizer. E embora passem o tempo zangados e ele lhe dê gran­des tareias, isso não o impede de à noite

lhe fazer filhos. Espantoso, hem ? Estarem zangados não é impedimento, considera ele.

  • Não viste no outro dia o que se passou num tribunal ? Um homem separado da mulher, embora não judicialmente, pro-curou-a em casa; como ela se recusasse, atou-a com uma corda e levou-a para a cama. O tribunal reconheceu-lhe esse di­reito, era marido...

 

 

( do Livro Bolor, de Abelaira )

 

 

 


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Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2018
Um acto desnecessário

A conspiração era latente, mas a família real passou um último mês de retiro em Vila Viçosa. Desembarcou no Terreiro do Paço pelas 17h20. D. Carlos e o príncipe herdeiro morreriam umas dezenas de metros à frente. Era o princípio do fim da monarquia. Passam 110 anos sobre o regicídio

 

P.S. A monarquia estava moribunda, caia com qualquer abanão. Verdade seja dita, o partido republicano não esteve envolvido na conspiração que também não foi bem vista por muitos monarquicos.

Um acto inutil.


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publicado por pimentaeouro às 21:53
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Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2017
É a natureza do homem

É a natureza do homem. O século XXI foi anunciado ao mundo como o século de todas as esperanças: progresso, bem estar para todos, maravilhas da ciência, tudo do melhor no melhor dos mundos (Candido de Voltaire não diria melhor).

Decorrida apenas uma década temos todas as ilusões desfeitas, angustias e caminhamos para rumos incertos e cheios de perigos. O século XXI herdou todos os problemas que já estavam no ventre dos anos 80 e 90 do século XX; aumento das desigualdades sociais e da pobreza no mundo, crise climática e do ambiente, esgotamento dos recursos naturais, guerras e agravamento do conflito no Médio Oriente, etc. e acrescentou-lhe a crise financeira mundial, sem fim à vista.

A primeira década do século XXI segue perigosamente as pegadas da sua homologa do século XX numa escala mais elevada: o século XXI começa como o século das crises sem que tivesse aprendido nada com o passado recente.

Até hoje o homem mostrou-se incapaz de gerir as sociedades que cria para viver e as sociedades potenciam progressos armadilhados e patologias ideológicas de autodestruição; os  moai (estátuas gigantes) da Ilha da Páscoa são o exemplo padrão .

Uma teoria inepta, o liberalismo económico, mal alinhavada quando o capitalismo industrual dava os primeiros passos e, principalmente, desmentida pela realidade da vida continua a ser a bússola da nossa marcha há mais de dois séculos. Porque?

Simplesmente, porque garante a ganância dos que dominam e justifica a exploração dos dominados. Já foram os industriais ingleses do século IXX, agora são os especuladores financeiros, invisíveis, do século XXI.

A história não se repete, a UE, como hoje existe, pode durar pouco tempo o que seria uma tragédia.

 

 


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Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2017
Os cinco cavaleiros do Apocalipse

noite.jpg

Tivemos uma Igreja conservadora, reacionária alinhada com a Contra-Reforma, a Inquisição, que matava e espoliava os mortos, o delírio do ouro raiz da megalomania nacional,  a praga dos jesuítas que dominavam o ensino e as universidades até que Pombal correu com eles,  , um povo beato que acreditava no Sebastianismo e tudo somado conduzi-nos ao reino cadaveroso e a níveis de analfabetismo próximos do norte de África.

Foi com estas credenciais que entramos no século XX. É um atrazo estrutural que precisa de décadas para ser superado. O Portugal moderno é um parto doloroso.


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publicado por pimentaeouro às 11:37
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Terça-feira, 5 de Dezembro de 2017
Perplexo

As civilizações são formadas por camadas sucessivas de capital social que as gerações do presente legam às vindouras. Cada geração que nasce beneficia e é condicionada por esse capital que por seu torno irá renovar para as gerações que lhe sucederão. Cada um de nós usufrui do edifício social e deixa-lhe um pequeno tijolo para os nossos descendentes: este fluir da História é independente da nossa vontade individual e as excepções são os indivíduos de mau caracter ou mal formados que estragam em lugar construir ou os homens excepcionais que estão à frente do seu tempo.

Vem isto a propósito daquilo que eu recebi da sociedade e do legado que vou deixar. Conscientemente, contra a minha vontade, nunca imaginei que iria legar aos meus descendentes uma sociedade baseada na especulação desenfreda e no capital selvagem. A sociedade bafienta que eu recebi, forjada por Salazar, com a cumplicidade da Igreja Católica, não era flor que se cheirasse e eu acabei por tomar consciência da sua iniquidade .

Eu não mereço ser espoliado na minha pensão de reforma ( já lá iremos) e os trabalhadores não merecem ser explorados com salários de miséria, atirados para o desemprego,  e os jovens empurrados para a emigração porque o país, governado por cliques políticas incompetentes e gananciosas e por caciques mesquinhos, os empurra para a emigração, para longe, quanto mais longe melhor. Eu não trabalhei para construir esta sociedade onde, poderes ocultos, do capital e da finança, mandam  em países inteiros. Tenho uma pátria pequena mas quero-a independente.

Será pedir muito?



publicado por pimentaeouro às 18:40
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Sábado, 25 de Novembro de 2017
Castrati #1

A prática de castração de jovens cantores (ou castratismo) existia desde o início do Império Bizantino, em Constantinopla, em torno de 400 d.C.. A imperatriz bizantinaÉlia Eudóxia, tinha um coro cujo mestre era um eunuco, que pode ter estabelecido o uso de castrati em coros bizantinos. Por volta do século IX, cantores eunucos eram bem conhecidos (pelo menos em Basílica de Santa Sofia), e permaneceu assim até o saque de Constantinopla pelas forças ocidentais da Quarta Cruzada em 1204. A partir de então, a prática de cantores eunucos desapareceu.

Somente no século XVI, na península Itálica, os castrati reapareceram, devido à necessidade de vozes agudas nos coros das igrejas. No fim da década de 1550, o duque de Ferrara tinha castrati no coro da sua capela. Está documentada a sua existência no coro da igreja de Munique a partir de 1574 e no coro da Capela Sistina a partir de 1599. Na bula papal Cum pro nostri temporali munere de 1589, o papa Sisto V aprovou formalmente o recrutamento de castrati para o coro da Basílica de S. Pedro.

Na ópera, esta prática atingiu o seu auge nos séculos XVII e XVIII. O papel do herói era muitas vezes escrito para castrati, como por exemplo nas óperas de Handel. Nos dias de hoje, esses papéis são frequentemente desempenhados por cantoras ou por contratenores. Todavia, a parte composta para castrati de algumas óperas barrocas é de execução tão complexa e difícil que é quase impossível cantá-la.

Muitos rapazes alvo da castração eram crianças órfãs ou abandonadas. Algumas famílias pobres, incapazes de criar a sua prole numerosa, entregavam um filho para ser castrado. Em Nápoles, recebiam a sua instrução em conservatórios pertencentes à Igreja, onde lecionavam músicos de renome. Algumas fontes referem que muitas barbearias napolitanas tinham à entrada um dístico com a indicação Qui si castrano ragazzi (Aqui castram-se rapazes).

Em 1870, a prática de castração destinada a este fim foi proibida na Itália, o último país onde ainda era efetuada. Em 1902, o Leão XIIIproibiu definitivamente a utilização de castrati nos coros das igrejas. O último castrato a abandonar o coro da Capela Sistina foi Alessandro Moreschi, em 1913.

Na segunda metade do século XVIII, a chegada do verismo na ópera fez com que a popularidade dos castrati entrasse em declínio. Por alguns anos, ainda existiram desses cantores na Itália. Com o tempo, porém, esses papéis foram transferidos aos contratenores e, algumas vezes, às contraltos.


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publicado por pimentaeouro às 19:33
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Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
Bem tapadas

burca.jpg 

 

Em Riade (Arábia Saudita) a polícia religiosa anda pelas ruas para garantir que todas a mulheres cumprem as regras impostas pela lei islâmica.

Até Quando?


sinto-me:

publicado por pimentaeouro às 20:09
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Conta, peso e medida

“Julgo que o Capitalismo, sabiamente gerido, pode provavelmente tomar-se mais eficiente para alcançar objectivos económicos do que qualquer sistema alternativo vislumbrável por enquanto. Mas isso por si só é de muitas formas extremamente questionável. O nosso problema é elaborar uma organização social que seja o mais eficaz possível sem ofender as nossas noções de um modo de vida satis­fatório

 

John Maynard Keynes


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publicado por pimentaeouro às 19:54
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Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
Tempo cínico

… do nosso tempo cínico, exaltado de violên­cia, de ansiedade, de solidão, de espanto, de medo, de esperança, de terror, de ver­dades privadas, de mentiras colectivas, de verdades colectivas, de mentiras organiza­das, de amores frustrados, de amores subli­mes, de ódios perpétuos, de perpétuas es­peranças, de receios de felicidade, de ân­sias de felicidade...

 

… o homem vai destruir-se, mesmo que não haja guerra vai destruir-se, a vida faz-se a um ritmo que o homem não poderá supor­tar, e um dia aparecemos todos na rua aos saltinhos, a ladrar como os cães ou a escoicinhar como os cavalos ou os burros, todos doidos, a vida faz-se depressa de mais para a medida do homem,

nós estamos perto de Rilhafoles, é só
bater  à portorta”,…


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publicado por pimentaeouro às 20:28
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Sábado, 18 de Novembro de 2017
Avesso dos Lusíadas #3

Repercussões sociais da expansão

 

Nenhum escritor descreveu as consequências sociais da

expansão com tanta clarividência como Gil Vicente. O motivo

por que uma afirmação como esta pode, ainda hoje, causar

estranheza está no facto de nos terem ensinado a ver apenas

um espirituoso inventor de comédias num escritor que foi

também um corajoso pensador social. O auto-retrato que ele

nos legou no prólogo da Floresta de Enganos (texto que,

inexplicavelmente, tem passado despercebido) não foi o de um

alegre cómico, mas o de um filósofo perseguido pelas suas

ideias e amordaçado pela néscia intolerância dos seus

contemporâneos.

 

A análise das contradições e conflitos que agitavam a

sociedade portuguesa decorridos trinta e cinco anos sobre a

descoberta do caminho marítimo para a índia é o tema de

uma peça representada em Évora em 1533: a Romagem dos

Agravados, isto é, o desfile dos que estavam descontentes

com o tempo em que viviam. Esse texto é, ainda hoje, o mais

lúcido estudo de que se dispõe sobre a sociedade portuguesa

dos meados do século XVI.

 

O desfile faz-se perante Frei Paço, que preside. É frei

porque pertence à Igreja, é paço porque pertence ao governo,

mas as duas qualidades confundem-se: «o paço, em frade

tornado, não é frade nem é paço», diz a peça. Domesticada a

nobreza, desaparecida a alta burguesia, a influência política

do clero era cada vez maior; o poder religioso confundia-se

com o poder civil. Uns meses antes da representação tinha

D. João III criado a Mesa da Consciência e Ordens, à qual

passava competir a decisão dos assuntos que «tocassem à

consciência» do rei, isto é, das questões mais melindrosas da

governação. E quem a dirigia eram prelados.

 

Os personagens vêm dois a dois, e cada par simboliza

uma classe social. A primeira a aparecer é o proletariado

campesino: um cavador acompanhado pelo filho. A imagem

do cavador no século XV I é menos risonha do que a do

século XIX. Não se chama Zé-Povinho, chama-se João Morteira,

João da morte. O filho é Sebastião, nome de mártir. É

a ideia de morte a que Gil Vicente sempre liga à vida do

trabalhador da terra: «sempre é morto quem do arado há-de

viver»; «nós somos vida das gentes e morte das nossas vidas»;

«se o nascer foi um momento, porque morro em tantos dias

padecendo?». Era uma classe que agonizava. Em 1521, uma fome

terrível assolou os campos, tendo morrido pelos caminhos muitos

camponeses que tentavam chegar a Lisboa.

A carne, base da alimentação durante a Idade Média, era agora

rara; em 1580, dois estrangeiros que viajam por Portugal

surpreendem-se da pobreza da alimentação popular: sardinha

salgada e pão escuro. A riqueza ultramarina não chegava ao

campo, mas as suas consequências repercutiam nele.

 

Os proprietários, do clero ou da nobreza, faziam pressão para

obter cada vez mais de um solo que produzia cada vez menos,

porque a quantidade dos gados e portanto dos estrumes

diminuía, porque os braços fugiam sob o impulso de um

estímulo duplo: a recusa da miséria e a cobiça da fartura que

a cidade parecia oferecer.

 A luta por um salário melhor já não era possível, porque um

trabalho igual ao do cavador aldeão podia ser prestado pelo

escravo negro; mais ou menos

por esta altura (em 1541), Damião de Góis calculava que

entravam anualmente em Portugal dez a doze mil escravos

africanos. E tudo isso está por detrás da figura dramática de

João Morteira: «Eu trabalho até que caio!» «Eu sou pobre

como um cão!» Já só tem uma esperança: que ao menos o

filho possa ter uma vida melhor.

 Quer, para isso, encaminhá-lo para a Igreja; não é, explica,

uma questão de devoção; é para que possa viver um pouco

mais folgado. Mas nem isso consegue, porque Frei Paço, que

examina o rapaz, não o deixa passar no exame.

 

Também a aspiração do cavador é característica da

época. A Igreja era um caminho para fugir à miséria ou para

a evitar. Filhos de camponeses, filhos segundos de nobres,

ordens religiosas. Elas eram um dos três caminhos possíveis:

«Quem quiser medrar, Igreja, Casa Real ou mar», dizia a

sabedoria do povo. A alternativa era entre a religião, o

serviço do paço ou de algum nobre ligado ao paço, ou a

emigração. Essa procura conduziu, durante o século XVI, à

hipertrofia do pessoal da Igreja; subiu o número de ordens

religiosas, subiu o número de conventos de cada ordem (o

total passou de duzentos para o dobro). Mas a Igreja só

marginalmente participou da riqueza dos descobrimentos; era

fundamentalmente da renda da terra que vivia. Não explorava

directamente os solos, mas recolhia o dízimo de toda a

produção (isso vinha já do século XII I e a instituição da

décima de Deus fora então a forma pela qual a Igreja se

defendera da subida do custo e do nível da vida) e recebia as

rendas dos pequenos empresários rendeiros e enfiteutas, que

formavam a classe média rural.

 

A crise da classe média rural é denunciada no auto pelo

lavrador Aparicianes, que vem acompanhado pela filha:

«Porém eu, que estou no meio, vivo mais desesperado.» Está

no meio porque a sociedade rural se articula em três níveis:

senhores, lavradores, servidores. Os senhores mostram-se

agora mais exigentes na cobrança dos seus quinhões, os servidores

fogem dos campos e os lavradores empobrecem. Este

queixa-se de que traz de renda dois casais que pertencem aos

frades; o temporal desbaratou as sementeiras e ele foi pedir

que lhe esperassem um pouco pela entrega da renda. Mas os

frades responderam que a espera não era a sua divisa. A

palavra espera tinha então o sentido duplo de moratória e de

esfera; e esta última era a divisa de D. Manuel e simbolizava

a riqueza planetária dos descobrimentos. É esse o sentido da

resposta dos frades: estão fora da esfera, não podem esperar.

E obrigaram-no a pagar a bem ou a mal: penhoraram-lhe o

lar, e nem os lençóis escaparam. E o lavrador queixa-se e

lembra com saudade o tempo em que cantava alegremente à

frente dos seus bois, sem sentir o peso da fadiga. Agora não

canta, porque está pobre e «a pobreza e a alegria nunca

dormem numa cama».

 

A destruição da classe média rural era consequência

directa das novas condições de vida do País e não resultava

só da severidade dos proprietários na cobrança da renda e da

fuga dos trabalhadores. Pouco a pouco, as quintas e os casais

que andavam nas mãos dos lavradores passavam à posse dos

nobres, funcionários e aventureiros regressados da índia, porque

a terra foi o único género de investimento dessas economias.

O Português entendia que só a terra oferecia segurança.

Um nobre sentencia nas suas trovas: «Segundo se diz, e eu

avento, de ter coisa sem raiz não se faça fundamento», isto é,

segundo se diz e eu também penso, só a posse da terra é um

investimento seguro. Ele referia-se aos perigos dos negócios de

gado, mas a ideia alargava-se a todo e qualquer negócio com

alguma margem de risco. Um texto de 1608 mostra que, em

plena crise, o ramo de oliveira, o palmo da terra, era considerado

«o último refúgio: «Domina este reino uma certa constelação que

faz os homens incapazes de receber o bom conselho; e assim, eu

profetizo uma grande ruína, e será ditoso o

que tiver um pé de oliveira a que se abraçar!»

Mas esse pé de oliveira já existia antes de o torna-viagem

o comprar. O pão, o vinho, o azeite, não aumentavam pelo

facto de o título da propriedade ou a iniciativa da exploração

estarem a cargo do lavrador plebeu ou do proprietário ido da

cidade, enriquecido com a canela ou a pimenta, e que passava

a viver do rendimento rústico. O número de explorações nas

mãos da classe média é que diminuía. Os novos donos são

dons; muitos não o são por nascimento, mas exigem que lho

chamem, ou pelo menos comportam-se como se o fossem. A

antiga sociedade rural, que se hierarquizava na base das

funções, é substituída por uma outra com base na exterioridade

e no tratamento: de um lado os senhores e as donas, por

outro os homens e as mulheres. Homem passa então a ter

sentido de trabalhador rural; ser tratada por dona é o objectivo

de toda a mulher. Mas a passagem dessa fronteira social

é impossível a quem fique agarrado à enxada. O passaporte

obtém-se na cidade. Aparicianes sabe isso muito bem. Do

mesmo modo que o cavador quis que o filho fosse clérigo, ele

qer que a filha seja dona:

 

É da serra da Lousã,

moça de mui boa fama.

Trago-a cá para ser dama,

quero que seja paçã.

 

 

Para isso já lhe comprou perfumes importados de Génova

e vem confiá-la às lições corruptoras de Frei Paço, que a

moça aprende muito depressa. Muitas mulheres, seguindo esse

mesmo caminho, chegaram a damas e alimentaram a prostituição

de Lisboa no século XVI . O nome que Camões lhes

dava era o de damas de aluguer.

 

A desagregação da classe média urbana é revelada no

auto sob a forma de um conflito entre dois grupos sociais de

características bem diferentes, mas que ainda hoje andam

confundidas sob a mesma designação de classe média: uma

classe média autêntica, porque enraizava no trabalho e se

situava ao nível social correspondente a uma verdadeira situação

económica, e uma classe média fictícia e parasitária,

baseada na aparência e que vivia à custa das classes produtivas.

Ter distinguido entre os dois grupos e definido a relação

que existia entre eles é uma novidade de Gil Vicente.

 

Duas regateiras, que vivem do abastecimento da cidade,

têm uma sobrinha para casar. São quase ricas, visto que a

rapariga tem de seu um conto de réis. Aspirava por isso a um

casamento numa classe social mais elevada: a deslocação de

todas as classes no sentido do vértice da pirâmide é uma dás

características da época Apareceu-lhe um moço que se diz

empregado na câmara de el-rei. Tem boas maneiras («tão

doce! tão cucarento!») e exibe as provas da sua posição de

funcionário do paço: o alvará de filhamento e de acrescentamento,

portanto de primeira nomeação e de promoção.

 Perante esse argumento decisivo, o casamento faz-se. Mas afinal

o alvará era falso. O rapaz era um vadio sem eira nem beira, que

apenas queria viver com o dinheiro da mulher. Pertence à classe

média fictícia, que vive, como um cogumelo, à custa da verdadeira

e que acabará por formar uma classe com características próprias

: ociosa, pobretana, pedinchona de empregos, dependente dos

grandes, servil em relação a quem quer que tenha o poder.

De todo o País milhares de jovens afluem

à corte, cantam trovas, tangem a guitarra, fingem de escudeiros

e morrem de fome até que encontrem senhor que os tome

a seu serviço ou mulher rica que os sustente. Das várias

sátiras que ficaram desse tipo de aprendiz de fidalgo, nenhuma

alude ao trabalho. Um clérigo que por essa altura

estava em Évora e que viera do Brabante, onde o trabalho

era a vida de toda a gente, surpreende-se com o que vê em

Portugal e escreve: «Esta gente prefere ter de suportar tudo a

ter de aprender algum ofício.» Mas também isso se relacionava

com a economia dos descobrimentos. O Estado, subitamente

enriquecido, pudera multiplicar a sua clientela. Dos

duzentos cortesãos do tempo de D. João I I passou-se a

quatro mil no tempo de D. Manuel, e a proporção deve ter

sido a mesma nas casas dos grandes senhores. Quem tivesse

qualidades, desembaraço, ou pelo menos padrinhos, não precisava

de trabalhar, e portanto trabalhar significava que não se tinha disso.

Era uma desqualificação. Trabalhar com o

corpo era o que faziam os Negros e os Mouros; frases do tipo

«0 trabalho é bom para o preto» e «Quem não tem padrinhos

morre mouro» entraram por essa altura na linguagem.

 

A nova estrutura do Estado estava na origem da onda do

parasitismo. Gil Vicente dava-se perfeitamente conta disso.

Depois de uma admirável cena de suspense, em que vai

enunciando como suspeitos do crime de falsificação todos os

altos funcionários régios que assistiam ao espectáculo, acaba

»r descobrir a verdade: o falsificador foi o próprio Frei Paço,

Foi o paco-frade, foi o sistema vicioso que tomava possível

ssa proliferação das classe ociosas à custa das que

prododuziam.

 

A análise vicentina incluiu muitos outros aspectos: a

nobrza riquíssima e fútil, a recitar versozinhos e a fazer

pressão sobre o paço para que lhe suba as rendas já enormes,

do clero que cobiça os bispados novos das ilhas, as freiras que

deploram a confusão deste tempo em que ninguém está

contente com a sua sorte. Mais do que os pormenores, é a

ideia geral que se deve apreender, porque ela exprime as

consequências sociais da economia da expansão: um Estado

rico numa nação pobre, onde a riqueza vinda de fora quebrava

a coluna vertebral do trabalho interno e provocava o

crescimento de uma falsa classe média que nada fazia e que,

como uma corcunda enorme, ia crescendo à custa do resto do

corpo do País e atrofiando com o seu peso as classes produtivas

 que já quase se limitam aos camponeses.

 

A vida de Gil Vicente serve de bom exemplo à evolução

que ele descreve. Homem do povo, mesteiral de profissão,

oi atraído pela actividade da corte e, no princípio do sé

culo XVI , trabalha como ourives da rainha viúva. A corte

aumentou; numa constante festa, precisa de espectáculos. 0

antigo mesteiral larga então as ferramentas do ofício e faz-se

funcionário. Recebe um ordenado para fazer «os autos del-

rei». É um intelectual remunerado e a partir desse momento

a sua vida reflecte uma outra evolução: a da cultura. A

linguagem que ele usa é plebeia, livre, saborosa. Diz tudo o

que pensa sem papas na língua. No tempo de D. Manuel, o

rei e a corte ouvem, riem, gostam. Mas no reinado seguinte

começa a haver quem não ria. Ante tanta liberdade, os

teólogos já franzem o sobrolho. No mesmo ano em que o rei

pediu em Roma o estabelecimento da Inquisição com o

pretexto, entre outros, de que a heresia luterana já tocara

Portugal, um embaixador português fez representar em Antuérpia,

na presença do legado do papa, um dos mais atrevidos

autos de Gil Vicente, precisamente o que tinha por tema

 

o assunto escaldante do tráfico das indulgências. Os teólogos

romanos indignaram-se e fizeram queixa ao papa. Não foi em

vão. O poeta teve um processo e expiou dois anos de castigo.

Ainda voltou à corte em 1536, e é nessa última representação

que nos dá o seu auto-retrato de pensador amordaçado. Mas

nesse ano começou a funcionar a Inquisição, e um silêncio

impenetrável desceu sobre Gil Vicente.

 

 

(José Hernamo Saraiva, História concisa de Portugal )

 

 



publicado por pimentaeouro às 12:42
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Terça-feira, 7 de Novembro de 2017
Paraíso dos loucos

 

ilha de pascoa.jpg

 

Um paradigma das armadilhas do progresso é a ilha de Pascoa e as suas enigmáticas estátuas gigantes. É uma história conhecida de como um povo pequeno caminhou para a quase extinção e a miséria: “… um crescimento ilimitado da população, uso indiscriminado de recursos, destruição do ambiente e uma confiança sem limites na religião para tomar conta do futuro. O resultado foi um desastre ecológico que levou à queda da população…”

 

O exemplo mais patético são as estátuas gigantes da ilha de Páscoa. Quando os holandeses lá chegaram, no dia de Páscoa de l 722  em lugar de uma ilha verdejante, encontraram um deserto árido, sem uma única árvore e escassos habitantes “pequenos, magros, tímidos e tristes”, segundo a descrição de Cook.

Tinham esgotado os recursos da ilha, acabando por se guerrearem para disputar os escassos restos existentes.

Também o planeta terra pode transformar-se numa ilha com enormes estátuas gigantes mas sem comida para o jantar. Não se trata de um cenário de ficção mas de uma probabilidade plausível.

 


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publicado por pimentaeouro às 20:24
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Quinta-feira, 5 de Outubro de 2017
5 de Outubro

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É um marco na nossa História. A monarquia caiu sem que ninguém sai-se à rua a lutar por ela, apenas Paiva Couceiro tentou lutar no Norte sem qualquer sucesso: a monarquia já não base social de apoio nem simpatizantes. O regime monárquico era um defunto.

Quando a república foi implantada em Portugal em todos os países da Europa, excepto na Suíça, reinavam monarquias. Aparentemente estávamos avançados o que não era verdade, mais de 80% da população vivia no campo e era analfabeta.

Salazar tentou apagar, com êxito, a memória república. O 25 de Abril também não se lembrou dela.

A república, com todos os excessos e erros que teve, deve fazer parte deve fazer parte da nossos memória colectiva.

 


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publicado por pimentaeouro às 21:44
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Domingo, 1 de Outubro de 2017
Ser português hoje

Na época da globalização, da Internete, das redes sociais e da explosão da informação o que é ser português hoje? o que é a consciência social ?

Não podemos fugir à mediocridade que reina em todo o lado e que no nosso caso é mais grave porque sempre fomos um pais atrasado e  inculto. Ao fogacho das descobertos sucederam séculos de obscurantismo.

Isto parecem coisas do passado mas não são, ainda hoje pesam.

 


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Sábado, 26 de Agosto de 2017
Robots

  Resultado de imagem para robos

 

A tecnologia cria postos de trabalho, mas não ao mesmo ritmo que destrói, diz o pai do primeiro computador português. Peso dos administrativos e trabalhadores da indústria caiu a pique desde 1997.

Portugal perdeu 310 mil empregos de médias qualificações entre 1997 e 2017. 



publicado por pimentaeouro às 18:53
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Segunda-feira, 10 de Julho de 2017
Somos menos e mais velhos

 Resultado de imagem para bebês recém nascidos

 

Portugal registou no ano passado a segunda taxa de natalidade mais baixa entre os 28 Estados-membros da União Europeia (UE) e foi um dos países cuja população diminuiu, de acordo com as primeiras estimativas sobre população hoje publicadas pelo Eurostat.



publicado por pimentaeouro às 12:06
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